31 julho 2012

quando digo

que vou de férias para o brasil, as pessoas dão-me um sorrisão coberto de inveja enquanto dizem Que sorte com uma vontade que não lhes chega aos olhos, e, quando digo que vou para são paulo, dizem Ah, que giro, através dos dentes semicerrados num sorriso amarelo de quem acha que o brasil é só areia branca, água azul e um mulato a servir-te água de côco, de quem acha que as coisas são baratíssimas e que se vive muito melhor aqui, de quem nem sequer sabe onde é são paulo, ou que a população desta cidade excede a inteira de portugal, ou que andas quatro horas de avião e ainda estás no mesmo país,
digo-te já. são paulo é mais caro que portugal, assim, à grande, é uma selva de pedra, deixar de fumar nesta cidade é um paradoxo irónico, porque com a poluição fumas muito mais do que os teus sete chesterfields por dia, há dois rios, são cinzentos, margens de betão cinzentas, nunca andas a pé, sempre de carro, blindado, à noite nunca se pára num semáforo vermelho, e as portas estão sempre trancadas, nos semáforos há miúdos descalços mais novos que o meu irmão que vendem pastilhas, paçoca, bolas insufláveis, sombrinhas, jornais, revistas, panos de prato, bebidas, calculadoras gigantes e que se oferecem para lavar-te o vidro da frente, mesmo que digas que não, eles debruçam-se sobre o capot e nos 13 segundos que têm antes do sinal abrir passam água, sabão e ainda um cheirinho bom no final, batem-te no vidro com a mãozinha magra e suja e o mais certo é arrancares sem olhar para trás,
esta semana fui para o nordeste, e quase que vejo as caras dos que me escutam, Ah, o nordeste, deve ser lindo, é, é lindo, mas a definição de ... vida?, muda completamente, basta uma vila ter cinco ruas que é considerada cidade, uma cidade sem uma estrada alcatroada, tudo de areia, de terra, de barro, as casas são feitas de madeira e telhado de palha, folha de palmeira, e as que são de tijolo, são mesmo só de tijolo, sem reboco, sem nada, apenas com a fachada pintada de cores vivas e as paredes laterais naquela cor de ferrugem intercalada pelo cimento de areia que mostra que não valia a pena pintar o resto, os bebés andam nus e o resto anda de chinelos o tempo todo, putos de sete, oito, nove anos brincam no cais, mergulham e empurram-se uns aos outros, mas mal vêm um barco de turistas - ricos gordos brancos - chegar, vestem a t-shirt apressadamente e é vê-los a atropelarem-se para nos ajudar a sair, Olhà visita guiada ao farol, Se você quiser eu declamo uma poesia pro senhor, Se a senhora quiser posso ser seu guia, olha só, é só falar, fica à vontade,
e se no nordeste sinto-me capitalista, turista sem jeito, a andar na areia aos tropeções, a achar a areia demasiado quente, com a máquina ao pescoço, a máquina que vale mais do que um ano de subsistência daquela gente, por mais morena que fique nunca sou igual à cor dos índios que me olham com resguardo,
em são paulo também não me encaixo, porque, fazendo parte da classe rica, não sou chique o suficiente como as raparigas da minha idade, não me pinto todos os dias nem uso diamantes, não tive uma festa dos 15 anos e não tenho motorista,
nos músicos me encaixo, porque a linguagem é universal, tanto com os músicos que tocam em barzinhos em são paulo como com o marinheiro guitarrista que nos levou de barco pelo maranhão afora

2 comentários:

mary disse...

Marta, está soberbo!!!
Descrição excelente do Brasil... e quanto a teres encontrado o teu "lugar" onde te encaixares... perfeito, simplesmente perfeito!

LL disse...

que bonito, bichinho. é bom ter-te de volta.