12 agosto 2012

a anfitriã da festa era nitidamente louca

vinha abrir a porta aos seus convidados vestida com uma combinação única de ganga, blusa e calças num só pedaço de tecido, que deixava a sua cintura numa zona um pouco duvidosa e que não a ajudava nada em termos de sensualidade, mas que era todavia compensada pela pequena tatuagem na nuca, uma rosa, que se avistava quando mexia ao acaso nos cabelos compridos, cabelos esses, ruivos, que sofriam dum penteado que era sem dúvida fruto de várias horas no cabeleireiro, mas cujo resultado final era equivalente ao acordar num dia mau, o que assustava mesmo era os olhos, carregadíssimos de um verde musgo e com estrelas cintilantes por cima, de maneira a que olhá-la nos olhos tornava-se uma tarefa difícil pois o brilho das pálpebras ofuscava-lhe o brilho dos olhos,
fazia anos, estava feliz e abraçava toda a gente com igual e não tão contagiante efusão, independentemente do grau de confiança que tinha com os que envolvia nos seus braços magros, era magra, quase esquelética, o que, combinado com os olhos enormes e o cabelo comprido e a estranha combi, tornava-a louca,
metade da festa eram amigos ou família do seu companheiro, um ex-solteirão quinze anos mais velho, que vivia fugindo das intenções casamenteiras da louca - embora cá entre nós eu ache que ela esteja grávida -, a outra metade eram amigos dela, novos, imaturos, novos ricos que falam alto e exibem suas mulheres com colares que eles mesmo deram, como se a mulher não passasse de um cabide onde iam pendurando sucessivamente as provas da sua nova riqueza e que à noite também se ajoelhavam à sua frente, desta secção, havia duas irmãs (ou primas), muito parecidas, com idênticos saltos de quatorze centímetros e idênticas saias de cinco, identicamente feias e medíocres, pintadas quase ao ponto de parecerem bonitas, que reclamaram que estava demasiado barulho para conversar porque a outra secção de convidados decidira tocar bateria, saxofone e guitarra, tudo ao mesmo tempo!, e a louca anfitriã dividida entre o seu companheiro que decidira desbundar no piano também e as primas feias, que cumprimentara quando chegaram com gritinhos histéricos e abraços nas pontas dos pés dignos de adolescentes no regresso às aulas depois das férias de verão,
cantou-se os parabéns (o bolo era horrível; esteticamente era lindo, mas sabia a qualquer coisa entre borracha e gelatina de detergente), e o namorido fez um discurso, deu-lhe os parabéns, disse que era o grande amor da sua vida - os seus três filhos, frutos dum casamento com outra mulher, entreolharam-se com aquela mistura enternecida de familiaridade e incredulidade - e toda a gente, inclusive a louca, ficou à espera que a pedisse em casamento, ela com olhinhos grandes, com as mãos a alisarem-lhe o braço, a beber-lhe o ar da boca,
mas não, ainda fez uma piadinha sobre isso e depois concluiu com uma piscadela, já meio trôpego do licor que andara a beber desde cedo, que não se pode sequer brincar com isso.

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