29 agosto 2012

correr

estava a descer a rua, num passo de quem está relativamente tranquilo com a vida e com a noção de passar a próxima hora a suar energias, ia bem equipada, calções, ténis de jeito, soutien de desporto e uma t-shirt larga, finalmente consegui prender o cabelo, é certo que não sem a ajuda de um gancho que roubei à minha irmã, mas está preso, fora dos meus olhos e da minha futura testa suada,
não ia a pensar em nada, ia em passo enérgico e elástico e passou um homem de corpo bonito, em calções curtos e tronco nu, grande sem ser demasiado, louro, olhos azuis, tinha ar de turista finlandês ou sueco a passar férias num hotel no estoril que deixou a loura boazona a dormir mais um bocado numa cama dois por dois e veio dar a sua corrida matinal, corria bem, e, ao contrário de mim que andava até ao sítio onde ia começar a minha corrida, vinha já correndo,
passou por mim e olhou-me, duma maneira no limiar entre o vulgar e o charmoso, e fez um gesto de aprovação, não sei se das minhas pernas recém-depiladas, da maneira descontraída como encarava a caminhada daquela manhã ou do facto de ir efectivamente correr, eu sorri-lhe de volta - voltou-me esta mania de sorrir às pessoas (e ainda há quem ache estranho!) - e segui caminho, com o ego massajado logo de manhã, independentemente, detesto esta palavra, tenho sempre que verificar se a escrevi bem, do objecto de aprovação do senhor,
chego ao sítio e corro, corro devagar, sinto aos poucos as pernas a aquecerem e o suor começa a surgir-me nas dobras das pernas e dos braços, corro com os braços junto ao corpo, não há nada mais ridículo do que correr com os braços a voar para todo o lado, vou sem música, encontro a motivação para o próximo passo dentro de mim, ou no mar ao meu lado, ou nas pessoas que vou ultrapassando, ou na mancha crescente de suor que me nasce no fundo das costas, deslizando, ah, se tu visses,
estou quase no fim, perdi um pouco da minha pose atlética, estou cansada, vermelha e o gancho da minha irmã pouco faz por mim, e vejo-o a vir na direcção oposta, no seu passo irritantemente controlado, não obstante já terem passado cerca de 45 minutos desde que nos cruzámos, às vezes olho para o chão quando corro ou olho para a frente sem ver, e por esta razão só o vi quando estava a escassos metros de mim - e os metros são ainda mais escassos quando se corre - e apenas tive tempo de esboçar um sorriso descoordenado para responder ao dele, encantado com o reconhecimento mútuo que naquele instante se deu.
no dia seguinte, tive o cuidado de sair de casa à mesma hora, na esperança que nos cruzássemos outra vez no caminho para a corrida, mas não aconteceu, de certo voltou para a finlândia com a sua boazona de metro e oitenta, e a esperança de o ver novamente espaireceu assim como veio, sem aviso, sem consistência e sem eu realmente acreditar nela,

quase uma semana depois, retomada a minha despreocupada relação com a corrida da manhã, termino a corrida, menos suada e menos cansada que na semana anterior, estou a andar a recuperar o fôlego, e lá vem ele, mais uma vez na direcção contrária, trocou de calções mas são igualmente curtos, e o tronco nu já vem com uma camada fina de suor, olhamo-nos com alguma surpresa, constatando nos olhos um do outro que na verdade não tínhamos perdido a expectativa, e ele abranda, pára, sorri, diz-me num português perfeito que afastou as minhas teorias nórdicas,
Estava à espera de te encontrar outra vez!
eu bufo um desajeitado e demasiado entusiástico Eu também e estendo-lhe a mão,
Eu sou a Marta,
Carlos,
segue-se uma conversa sucinta, vens correr todos os dias, sim, tento, não quis saber a que horas vinha nem a minha idade nem o meu número de telefone, finda a conversa, recuei um passo, dando-lhe abertura para continuar a sua corrida, e, escusado será dizer, fui para casa com o ego no topo.

5 comentários:

mary disse...

é bom que isso se desenvolva, faz favor!
isso já não acontece hoje em dia, não se pode perder a oportunidade.

Anônimo disse...

O anónimo gosta. E ó mary, o que é que nao acontece hoje em dia? Sai de casa rapariga...

Anônimo disse...

Acho que n acontece mesmo!! Tens que aproveitar!!

mary disse...

marta, blog privado durante os proximos tempos. com que e-mail acessas o blog para te poder adicionar a lista de quem pode ler?

Anônimo disse...

Ui tão pudica que a maryzinha é.