20 agosto 2012

primeiro

não quis levá-la a um sítio de sempre. não tinham intimidade, ainda, mas sentia que esse caminho pelos sítios de sempre travava um pouco a progressão normal até à intimidade. ligou-lhe de manhã e perguntou-lhe se queria ir almoçar; ela respondeu um claro luminoso, mesmo ao telefone dava para perceber, quase que sentiu a boca de amêndoa dela a formar a palavra que é uma descrição de si própria. suspirou.
tomou banho demorado, mas não se preocupou coma roupa que ia vestir; sabia que ela gostava de homens que cheiram a banho e que não ligava ao que vestiam. disse-lhe isto uma vez, em conversa num passeio em belém, a olhá-lo nos olhos e a sugerir mil significados para a frase A roupa não me interessa, mas é claro que isso podia ser só fruto da imaginação dele, ou dos olhos verdes dela que lhe ofuscavam a mente.
pegou nas chaves do carro (esqueceu-se da margarida que lhe ia dar em cima da mesinha do hall de entrada) e desceu aos tropeços a escadaria do prédio, impaciente demais para esperar pelo elevador. a vizinha do rés do chão direito estava à janela, para não variar, mas nem se lembrou de lhe dizer bom dia - e isto era correr riscos, porque a D.Almerinda levava a boa educação muito a sério - na pressa de querer chegar uns minutos antes do combinado, naquela calma de quem finge que acabou mesmo de chegar.
deu duas buzinadelas quando chegou à porta do prédio em benfica, onde ela vivia com os pais e o irmão mais novo. ainda não os conhecera, pensou, enquanto esperava. que estupidez, isso nem sequer faz sentido. aliás, quase não faz sentido estar aqui à espera dela, numa manhã de quarta-feira. abanou a cabeça como quem tira uma ideia para fora.
sentiu três pancadinhas no vidro.
ela vinha radiosa, se tivesse que lhe escolher uma palava seria luz, de vestido simples de verão, verde ou amarelo, não se percebia bem, algures entre o curto e o comprido, seria abaixo ou mesmo acima do joelho?, o cabelinho preto muito curto, arrumado atrás das orelhas e os olhos, os olhos a beijarem a face dele mais que o encostar de lábios à barba mal feita que se sucedeu ao entrar-lhe no carro, a falar demasiado, sobre a guitarra nova do irmão e os planos da mãe para a reforma da cozinha e a barulheira infernal que seria, onde vamos afinal?
vamos a cascais comer um cachorro, disse ele, e o rosto dela iluminou-se (como se isso fosse ainda possível) numa alegria de criança, Mas, continuou, há uma regra,
ela fez que sim com  cabeça, Estou a ouvir,
Ganha quem deixar cair menos coisas do cachorro,
achou piada e riu-se, mas certamente não imaginava que tal tarefa não seria nada fácil com os cachorros da rulote da praia do guincho,
enquanto conduzia pela marginal, já imaginava a adorável face com um borrão de mostarda ao canto da boca, e achou que, sem dúvida alguma, isso não quebraria o seu encanto.

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