26 agosto 2012

segundo

tinham-se conhecido numa festa do politécnico, onde ele fora parar meio por engano, meio por inércia de dizer que não, quando um amigo de longa data lhe vendeu a ideia que nas festas universitárias é que se está bem, porque Elas querem é homens mais velhos, pá, ainda por cima nestas festas bebem que nem umas doidas e torna tudo mais fácil. ficou a pensar no que quereria dizer tornar tudo mais fácil, mas não quis pensar demasiado, dava trabalho, talvez até tivesse que se sentar direito no sofá onde estava enterrado, na saleta, com a televisão a murmurar qualquer coisa sobre a rota das cegonhas ou a novela das nove.
chegou ao parque das nações e foi um inferno estacionar, o carlos insuportável a apontar miúdas que nem dezoito anos deviam ter e a dar-lhe toques de cotovelo como quem diz, e esta, hmm?, ele agarrado a uma imperial tagus, a pensar Que merda de festa, que merda de cerveja. em todo lado havia pinguins, trajados aos berros uns com os outros, como se a única maneira de comunicarem entre si fosse efectivamente os sons guturais que trocavam, por cima de cervejas e raparigas penduradas nos ombros dos rapazes, isto as que já não estavam enroladas com eles dentro duma capa, tudo no espírito puramente académico, claro. às tantas, o carlos desaparece, e ele senta-se num banco ainda não tomado por nada, observador dos fenómenos sociais daquela noite a caminhar para a manhã.
ela chegou como um gesto natural; não há melhor maneira de explicá-lo, era como se ele já soubesse que mais tarde ou mais cedo ela ia sentar-se ao seu lado naquele banco de jardim, oferecer-lhe superbock de uma litrosa escondida debaixo da capa, sorrindo cúmplice, a transbordar do traje que vestia, como se fosse uma estrela vestida, perdoa, leitor, o exagero peganhento da descrição, de cabelo muito curto, numa existência em todas as direcções e os olhos verdes a analisarem-no sem dó,
Olá,
Olá,
Eu sou a Isa,
Eu sou o João,
e como poderia ele adivinhar que essa introdução foi prólogo de uma conversa até ao amanhecer, que o carlos viria chateá-lo a dizer que se queria ir embora, que isto era só miúdas histéricas afinal, e ele a ignorá-lo subtilmente, mergulhado na melodia da voz da isa, no riso da isa, no nariz pequenino da isa, na escondida inteligência da isa e que no final, ou no início, ofereceu-se para levá-la a casa, sem saber onde seria isso, e ela diria que não a querer dizer que sim, dava-lhe um beijo na face e desaparecia, sem deixar papel nem número, apenas o beijo e o que a memória dele conseguisse guardar.

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