29 setembro 2012

confissão imberbe

discutimos, eu e eles.
eu digo que não,
eles que sim,
eu que não é bem assim
eles: 'cala-te senão...!'
senão o quê?
cortam-me a mesada?
deixam-me trancada?
não me deixam fazer nada?
cortam-me com uma espada
assim aos bocadinhos
enterram-me no solo
para nascerem menininhos
mais bem comportados que a filha crescida
que aprendeu a pensar e que sabe que a vida
não é sempre como queremos
nem eu, nem eles.

discutimos, eu e eles.
só porque querem que eu seja
a menina que sempre conheceram
a menina que raspa o joelho e se aleija
e precisa do conforto que então me deram.
eles bem dizem que é da idade,
da maturidade (ou imaturidade?)
própria desta fase
só sei que frases
entram e saem
sem que se registem ideias concretas.
se não querem ouvir mentiras,
porque é que a verdade é tão directa?

discutimos, eu e eles.
gritamos uns com os outros
e nesta chatice de ter pais
penso que ainda há mais
a dizer do que isso.
é com eles que durmo
que como
que vivo
e, no fundo, amo-os
e eles a mim.
enfim,
por pretextos tão reles
discutimos, eu e eles.


[200?]

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