23 setembro 2012

em alfama há um bar onde não se batem palmas

(não podia ter escolhido um título mais propício a dar problemas de concordância)
sobes por aquela rua de alfama, aquela estreita, das escadinhas, quando menos esperas viras à direita, ou à esquerda, depende de onde vens, e entras numa garagem, pequena, dá para um balcão e meia dúzia de mesas, quem ali vai conhece, ou então vai com alguém que conhece, como eu fui,
sentas-te e pedes qualquer coisa para beber, ao fim da noite, início da manhã portanto, há que comer também, naquela noite foi frango com amêndoas, comida caseira, servida ao quilo num prato a transbordar, há duas guitarras encostadas a um canto, além do piano em modo estante de livros temporária, a mim demorou umas duas horas a perceber que ali havia efectivamente um piano, quando te apetecer pegas numa guitarra e cantas, as pessoas calam-se e ouvem-te,
depois de quebrares o gelo, toda a gente canta, quem conhece o que estás a tocar e quem não conhece também, quem não canta pega noutra guitarra, no banco vago ao lado, nas próprias mãos e pernas e acompanha, as pessoas dançam, a guitarra gira por todos e as horas vão-se compondo de música e das pessoas que a fazem, não se bate palmas porque faz barulho, esfregas a mão assim uma na outra, volta e meia o dono, zarolho e careca, manda um shhhh, quando a malta se entusiasma, ninguém quer saber se sabes cantar ou não, ninguém quer saber de nada senão do momento que existe dentro desta garagem em alfama, onde se faz música sem pensar em como se deve fazer, faz-se simplesmente, genuinamente, de peito aberto, um bar onde não se batem palmas e onde seis horas passam a correr sem dares por elas

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