20 outubro 2012

'ele gosta de miúdas exóticas'

disse-me ele, em tom de confidência, apontando-me o ele em questão, profundamente embrenhado nas feições eslavas da rapariga à sua frente, olhos muito claros, pele branca e cabelo escuro, alta, aquele nariz característico e um ar geralmente aborrecido, como era o caso,
'eu gosto de raparigas mais simples'
como aquela do teu coro, como é que ela se chama?, é bonita, simples, não anda praí a dar nas vistas, mas se olhares com mais atenção é a mais bonita de todas,
eu a pensar, e eu?, não me dizes isto porque está ali sentado o meu companheiro, ou achas realmente a raquel, chama-se raquel, mais bonita? não sei porque é que se me deu este pensamento, se calhar ando a precisar que me digam que sou bonita, quando nos mostramos numa relação fechamos a porta a uma série de coisas, não é?, não só de nós para os outros como dos outros para nós, uns meses depois, solteira, consegui atingir uma cumplicidade sublime com uma série de pessoas que nunca existiria se tivesse o rótulo de comprometida colado com cuspo à testa,
mais tarde, levei-o de carro para casa, perguntei-lhe porque é o gordo da última estante tocava sempre com um ar tão desapaixonado, é mesmo gordo, transborda da cadeira, os botões da camisa sempre em lançamento eminente, o violino parece uma perna de frango nas mãos rechonchudas, vai na volta, quando lhe dá a fome, come um violino a meio do ensaio, só para matar o bichinho, e toca sempre com os ombros descaídos, um ar enfadado não muito diferente do daquela rapariga, também deve ser russo ou búlgaro ou húngaro, dá-lhe a fome e come a perna de frango, o violino, porque é que ele toca assim?
partiu o arco e está lixado porque a orquestra não lhe quer pagar um novo, embora isso esteja contemplado no seguro, por isso toca assim, disse-me ele, lá da altivez da primeira estante,
dizes à raquel que ela é muito bonita? podes dizer que fui eu,
eu digo, és um homem crescido, ainda há pouco me contavas como eras divorciado com duas filhas na roménia para sustentar, agora fazes de mim pombo correio, tudo bem, está tudo bem,
deixei-te em linda-a-velha, num bairro de prédios sem árvores, deste explicações um tanto confusas sobre como sair dali, de facto, perdi-me, mas eu gosto de me perder, senão, como conhecer a sensação de encontrar?

Um comentário:

mary disse...

sempre com textos que começam do ar e acabam na água, sem mas nem porquê ou sentido e no final das contas tão... bons de se ler. não encontrei uma palavra melhor, eu pensei, mas não encontrei.