30 outubro 2012

já está frio suficiente

que frio, pergunta-me, abaixo de 15 graus é frio, está bem?
para fazer tricot nos transportes públicos para me distrair do caminho de sempre, não obstante a beleza e a grandeza marina a dar-me cotoveladas do outro lado do vidro, finjo que não é nada comigo e continuo, agulha debaixo do braço, sento-me estrategicamente num lugar não à janela, 1, para não me render à vista e 2, para não acertar em ninguém com a agulha que corta o ar, assim vou, perante olhares divertidos de algumas pessoas, velhotas simpatizam comigo sem sequer termos uma conversa, às vezes perguntam-me o que vou fazer, é um cachecol, é sempre um cachecol, é só fazer carreiras atrás de carreiras, sem precisar contar, sem precisar acertar o ponto, é terapêutico na verdade, julgas que faço cachecóis para quê?, estou ali na minha viagem privada, claclaclac, o ferro a bater um num outro um som acolhedor e familiar, há pessoas que fazem terapia por osmose, fixam as agulhas, de olhar baço, e vêem a malha a nascer, ignorando a conversa que lhes é dirigida, para quê ligar a conversas, se o simples movimento das agulhas é o suficiente para te alienares do mundo, há moca melhor?, é grátis, é fácil, e podes fazê-lo no comboio sem que ninguém te chateie

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