23 novembro 2012

cinzento pardo

ando de cabeça baixa, a jogar sozinha ao jogo de não pisar os riscos do chão, o frenesim da hora de ponta aos pulos à minha volta, eu a não pisar os riscos, é fácil, tenho o pé pequeno, as pessoas tocam-me, empurram-me, querem apanhar o próximo metro, o próximo comboio, para quê?, há outro a seguir, tanta pressa, tanta sede de querer, de fazer, de fazer já, calma, respira fundo, pensa bem, percebe alguma coisa, não me incomoda o contacto físico dos empurrões e, todavia, um abraço genuíno dum amigo querido sufocou-me até às órbitas, deixa-me, não quero, as pessoas têm livros, hoje fui olhada com interesse porque  entrei no comboio com um calhamaço na mão, a brincar digo que é um dicionário, neste momento estou na recta final, literalmente, do meu itinerário e isso aborrece-me, queria antes perder o comboio, ou ir noutra direcção, os dias sem cor voltaram, pelo menos hoje foi, há um senhor atrás de mim com um assobio afinado, quem me dera, o assobio, não o senhor, o som é interrompido por Querida, já estou no comboio, senti ternura na informação quotidiana, logo retoma a melodia improvisada, eu vou enfiar o livro no, não, o nariz no livro, fingir que são curvas até casa em vez duma recta.

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