15 novembro 2012

intercalar

os professores do ensino básico têm uma aura, transpiram aquele ar cansado de quem gritou todo o dia e, passado uns anos, esqueceram-se porque é que quiseram ser professores, hoje havia de tudo, vi uma professora ainda não afectada pelo trauma das escolas públicas realmente preocupada com o bem-estar físico e psicológico dos seus alunos,
fiz 248km em três dias, é demasiado tempo num carro,
já a outra teceu uma série de comentários sucessivos e desagradáveis sobre alunos que só posso concluir que detesta ensinar ou falta-lhe alguma coisa, ou os dois, a quem é que não faltam coisas hoje em dia?, fui beber um café com um colega com mais do dobro da minha idade, contou que não era fácil estudar violino na altura dele, ordenhava vacas e trabalhava na terra, tinha os dedos grossos e ásperos, muito gordos para o violino, tinha colegas de piano muito delicadas que lhe perguntavam se as cordas não lhe magoavam, ele a dizer que se ria, São como veludo!, fugia ao pai para estudar violino, fazia trinta quilómetros à chuva de caixa às costas, depois das vacas e da terra,
trinta euros de gasolina não dá para três dias, é triste,
na escola primária, sentava-me ao pé do meu namorado nas aulas e dávamos as mãos, era uma combinação perfeita, eu dava-lhe a direita e ele dava-me a esquerda e assim namorávamos e escrevíamos ao mesmo tempo,
e o trânsito, e acidentes, e pessoas a tirar macacos do nariz, e carros a entupir a estrada com uma pessoa apenas lá dentro, e garagem, e ter que encontrar lugar para estacionar, e achar que compensa ir de carro do que transportes, mas não,
uns seis ou sete anos depois, reencontrei-o, e reatámos, o primeiro namoro a sério, a primeira vez, uma série de impressões que ficaram, tinha o mesmo perfume que tu,
é muito melhor ir de mota, liberdadeliberdadeliberdade, se não me agarrar caio, e sabe bem agarrar-me, apertar as coxas quando passamos entre carros e parece que vamos levar com um espelho no abdómen e sentir-te a sorrir dentro dum capacete, chegar com as pernas bambas, a adrenalina - podes ir mais depressa para a próxima - a adrenalina a substituir o lugar de qualquer coisa que me falta cá dentro,
agora está um homem formado, cozinheiro, vai ter um filho, estamos tão próximos em idades e tão longe em estados da vida,
tinha só a quarta classe e só tirou o secundário depois dos 24, achas que se ralou?, hoje é efectivo numa escola pública onde os professores já se esqueceram porque é que dão aulas,

Um comentário:

Anônimo disse...

engraçado