04 novembro 2012

sobre o amor hipotético

Quando o amor hipotético se nos apresenta, somos atacados pela avassaladora dúvida entre o querer e seu contrário. Entre o querer agora e nunca mais, a projecção de um futuro que depressa demais se torna improjeccionável e o ridículo da situação em que nós próprios nos enfiámos.
Depois, no recato, os actos e palavras iluminam-se em nova perspectiva e abanamos a cabeça num gesto de incredulidade e condescendência para com nós próprios, essa redundância que fere, e assim permanecemos, serenos, até ao próximo convite disfarçado de sorriso íntimo e olhar que despe.
Quando surge, normalmente depois de um hiato de duração variável, hesitamos. Já faz algum tempo desde o último reencontro, o suficiente para nos esquecermos, ou não nos lembrarmos, da ansiedade que foi aguentar uma, duas horas de conversa de interesse a puxar para o menos - nessa altura, da última vez, perguntámo-nos o que estávamos ali a fazer, mas agora já não nos lembramos. Não faz mal. A promessa de um telefonema em breve não nos parece tão vazia assim e é fácil acreditar que estamos realmente com bom ar. O ímpeto das primeiras impressões assola-nos sem piedade e sentimos na pele a agradável fricção da primeira vez. Por isso, acreditamos. Dizemos que sim.
Chegados espaço e tempo, os muitos minutos de espera pelos quais passamos revelam-se aquém do tolerável. Sentimo-nos um pouco estúpidos, às voltas nas redondezas de um café, fingindo afazeres. Depois disso, a conversa é vaga, baça e centrada num eixo que nos é divergente. Mesmo assim, é salpicada de ambiguidades, elogios directos e sugestões omnipresentes, o que nos enche com uma esperança ténue, sim, ténue - à quinta vez não somos assim tão ingénuos - de que podemos saciar essa ânsia dos lábios se inventarmos interesse durante tempo suficiente.
Normalmente, termina com garantias de que foi um bom bocado e, mais uma, promessa de breve reatar.
Recomeça o ciclo.

Um comentário:

AMI disse...

Reconheço isto.
Voltei a ler o que escreveste em Sintra na toalha de papel do "Culto da Tasca".
Tenho comigo esse pedacinho.
Gosto de te ler.