25 dezembro 2012

paris

quando fiz doze anos ofereceram-me uma viagem a paris, ia lá ter com o meu primo, o meu primo preferido, dois anos mais novo, viajei sozinha de avião com aquelas bolsas mitras ao pescoço com o passaporte e o bilhete lá dentro, uma hospedeira de bordo atenciosa sempre de olho em mim e nas outras duas crianças que viajavam comigo, uma não me lembro, o outro era um miúdo armado em bom a ver se me impressionava, decerto a visitar os avós emigrantes na frança, quando o avião saiu do chão foi sem cinto, com a mão a tapar mais ou menos para a hospedeira não o repreender, mas o suficiente para que eu pudesse reparar, e reparei, lembro-me de ter sentido uma pontada de superioridade e olhar para o lado a pensar 'que idiota',
era verão, junho, e fazia calor em paris, andava de calções, óculos de sol graduados e um chapéu de pala da nike, vermelho, fui à torre eiffel e subi de escadas, andávamos com uma baby-sitter coreana, não me lembro o nome, infelizmente, era querida, fomos à torre eiffel e o que mais queríamos era andar num parque de diversões precário que havia no jardim ao lado, ela indecisa, nós só queríamos andar na montanha-russa da água, íamos dentro dum tigre e na descida final levávamos um banho inevitável daquela água salobra, ela lá cedeu, era mesmo querida, ofereceu-me um ganchinho com missangas verdes antes de me ir embora, mesmo depois de eu e o meu primo termos posto um copo com água em cima da porta e dizer-lhe para passar por lá, e de cuspirmos pela varanda na cabeça das pessoas que passeavam na bastille, ela não se conseguia zangar,
uma noite fizemos um piquenique ao luar, eu e o meu primo a fazer sandes a tarde toda e a convencer os meus tios que era uma óptima ideia, fomos, estava daquelas noites quentes, foi brutal,
outro dia fomos para o campo, fizemos malas à pressa antes do jantar, 'leva um casaco e calças que lá faz frio', comemos arroz take away do chinês da esquina, nunca comi um arroz xau xau tão bom como aquele, lá no campo havia um laguinho e uma piscina e um barco de plástico, apanhávamos sol até não podermos mais no barco que estava no lago, quando não aguentávamos mais saltávamos para a piscina, gelada, e depois de volta para o barco, e assim sucessivamente, às vezes o barco fugia e tínhamos que saltar para dentro do lago, tirávamos à sorte, par ou ímpar, era um nojo, sentir o lodo e outras coisas a prenderem-se nas nossas pernas,
o meu primo tinha um tio, que não é meu tio, que veio ter connosco de helicóptero, eu andei de helicóptero, tínhamos que usar auscultadores para falarmos uns com os outros e por causa do barulho, eu lembro-me que os meus estavam tão quentes, queimavam-me a orelha, mas eu toda borradinha com medo de os tirar aguentei, parece que estás numa bolha, vês tudo a um ângulo quase completo, viras ao sabor da bolha, foi mesmo giro,
gosto mesmo do meu primo, ainda hoje é dos meus melhores amigos, vejo-o uma ou duas vezes por ano e parece que não passou tempo nenhum

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