04 fevereiro 2013

ameijôas

apanhei o autocarro em benfica, Este pára em sete rios?, Olhe, é já a seguir, menina, a sentir-me turista na minha própria cidade, a adorar o desprendimento da rotina, o saborzinho a férias no canto da boca, comprei um bilhete, dois, para um comboio no qual nunca tinha andado e sentei-me no segundo andar com o entusiasmo novato de quem anda no segundo andar de um london bus, deixei campolide e alcântara para trás e pumba, de repente estava na ponte, o rio espelhando o sol do meio dia numa luz gloriosa, belém lá em baixo, indiferente à minha euforia, a continuar a servir pastéis e a exibir coisas culturais, a margem sul é diferente, o que tem de feio de urbanizações desorganizadas é compensado pelo cheiro do alentejo e pelo início de tarde soalheiro e pelos pinhais a torto e a direito, saio em coina, só me falta a mochila de campismo às costas, estou com calças finas de verão e com botas da montanha, um aparente contrasenso mas é roupa que me faz sentir de viagem, o capricho de não querer esperar pelo autocarro, apanho um taxi com o senhor luís que me abençoou, a mim e ao amor que me move, desde o momento que abri a porta, confessei-lhe que queria comer ameijôas e ele, Boa!, apanhei-te nas bombas da galp, ensonado e sorridente, já está tudo bem, estamos os dois agora, com a bênção do senhor luís, Vamos comer ameijôas?, Vamos!, os dois num carro com vontade de voar, beatles aos berros, nós aos berros, o sol aos berros, paramos num cafézinho no meio da estrada no meio do nada, Tem ameijôas?, Olhe, não, mas espere aí, foi ao vizinho buscar ameijôas fresquinhas e à horta colher coentros, comi as melhores ameijôas da minha vida, feitas por uma daquelas senhoras que tem ar de quem faz ameijôas há trinta anos, vamos para a praia, fazer render a comida e as imperiais, está gloriosa, o mar ruge, mas não está enfurecido, não pode, num dia como este só nos pode abençoar também, o silêncio é estranho quando a onda volta para trás à espera de se formar outra vez, despes-te e dás o primeiro mergulho do ano, este estado quase etéreo que atingimos neste dia quase que me deixa sem palavras para escrever, temos a praia só para nós e para o pôr do sol que aí vem, laranja, lindo, longo, chegamos a casa para tomar um banho depressa, ligamos ao senhor luís para nos deixar na estação outra vez e voltamos para lisboa, mini férias em dia de semana,

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