16 fevereiro 2015

o pior jantar

sinto-me segura em contar esta história porque, apesar de mesmo assim não sentir necessidade de mencionar nomes, sei que és daqueles que, se descobrires que é de ti que falo, se vai rir à gargalhada,

pois o meu pior jantar do último ano, vá, foi em casa de um bom amigo
o jantar em si não foi nada mau, palavra de honra, o pretexto de já não nos vermos há demasiado tempo aliado ao carinho que tenho pelos teus pais, e, gosto de pensar, vice-versa, manifestou-se na tua voz, carregada do stress do dia, naqueles dois minutos em que afinal até conseguimos encontrarmo-nos telefonicamente, Anda jantar a minha casa hoje,
fui, as piadinhas do teu pai, a curiosidade e preocupação da tua mãe com a minha vida de emigrante, ajudei a colocar a mesa, como boa hóspede que sou, sirvo-me um copo de sumo e, ao ver o prato da noite - bifinhos com cogumelos e natas - um pequeno calor indisposto começou a gerar-se no fundo a minha garganta, parecido com aquele medo de quem sabe que está prestes a receber más notícias,

tu, na tua vida de afazeres variados, no meio dos telefonemas não atendidos e das mensagens não respondidas e dos Epá, tou muita cansado, hoje não posso, que estão todos perdoados, não te guardo rancor, mas a verdade é que tu, no meio disto tudo, esqueceste-te das pequenas coisas que nos tornam mais do que meros conhecidos, como, por exemplo, que eu não como natas

não gosto, é teima, psicologicamente repulsa-me aquele molho branco, espesso, como se estivesse a engolir argamassa com noz moscada, e nem vamos falar de bechamel, senão não termino de escrever este texto

fiz cara de pânico - interior, e comi tudo no meu prato, e contra a minha própria teimosia, estava óptimo, decidi experimentar mais, apesar de haver pouca coisa que não como e decidi também perdoar-te por não te teres lembrado,

depois fomos beber umas cervejas, ao jardim da dita cuja, encontrar umas caras conhecidas de outros tempos, um acaso doce e amargo ao mesmo tempo, no final da noite, levaste-me até ao meu carro, tinha deixado em tua casa, e eu já estava a sentir uma leve agonia que o arroto discreto não estava a aliviar, de certo que duas cervejas não chegam para este tipo de sensação, durante a viagem fui falando menos e menos, chego ao meu carro e dou-te um abraço rápido e um obrigada pelo jantar, e sigo, a andar devagar e a evitar irregularidades na estrada porque agora já é certo que vou vomitar eventualmente,

se há coisa que detesto mais que natas é vomitar

ainda são vinte minutos de viagem, faço um plano, uma lista, vou por este caminho, quando chegar a casa estaciono na rua, vomito e depois subo para casa, qual quê, aguentei-me que nem uma guerreira, a engolir ar e a chamar nomes às lombas, mal entro na minha rua, algo cede em mim, um bocado como o xixi aflito quando metes a chave na porta de casa, e só tenho tempo de encostar, puxar o travão de mão, abrir a porta e deitar tudo cá para fora, de cinto posto e tudo,

isto dura uns cinco minutos. fecho a porta, tiro a camisa e limpo a boca e a testa suada, levo o carro os vinte metros que faltam para estacionar e subo para casa, onde o meu pai olha para mim e de certo acha que apanhei uma piela daquelas, eu a tremer lá lhe explico das natas, lavo os dentes com prazer, tiro a roupa mal cheirosa e deito-me

escusado será dizer, nunca mais comi natas

2 comentários:

DE-PROPOSITO disse...

Um jantar é sempre um jantar! E não há jantares iguais.

FElicidades
MANUEL

Murteira disse...

QUE NOJO !