10 fevereiro 2015

segundo

o segundo na verdade é o primeiro, porque quando o começas a contar, ele já terminou, tornando-se assim, naquele instante, único, portanto, o primeiro, se não fosse por isso, talvez merecesse ser chamado primeiro em vez de segundo porque durante esse espaço de tempo muita coisa pode acontecer, primeiro, primário, entendes

também pode não acontecer nada de mais - não te baralhes com a dupla negação

mas um segundo a mais é o tempo de cozeres em demasia um ravioli de gema de ovo, assim como um segundo a menos é o tempo de perderes o intercidades para o porto, um olhar que fica aquele segundo a mais traz uma série de intenções subentendidas que não existiriam se não fosse por esse segundo, um segundo a menos naquele silêncio entre o final da música e do aplauso pode estragar toda uma sinfonia, um segundo a mais a levar a panela do fogão à mesa sem pegas porque ficaste com preguiça de as procurar pode doer um bocado e, no entanto, era só preciso mais um segundo para deixares as ditas pegas penduradas na porta do forno em vez de na bancada

no nosso primeiro beijo eu tinha dois segundos - primários - queria apanhar o último comboio para casa e não queria que ficasses com dúvidas da tarde - alcântara, cafés, joelhos a tocar debaixo da mesa, chiado, jantar, mostarda a cair-te do queixo, mais cafés, e cigarros, faz-me um - mas tinha mesmo que apanhar o comboio, nesses dois segundos que tinha, escolhi dar-te um em forma de beijo desajeitado na tua boca despreparada e depois correr, sem olhar para trás, para as portas que fechavam a apitar

Um comentário:

LL disse...

que bonito, marta.