20 julho 2015

tempo

dou por mim assustada com o mundo em que vivemos
calma, não estou a falar do aquecimento global, nem do último rinoceronte em áfrica, nem do desesperante sistema político, nem da merkel a mandar emigrantes embora, nem dos travestis assassinados no brasil, nem dos 4 euros à hora que profissionais qualificados recebem,

estou a falar do nosso mundinho, consciente mas estranhamente desapegado desses problemas maiores, que, na realidade, nem sequer nos afectam pessoalmente, estou a falar do nosso mundinho cibernético,

queremos tudo rápido. bem rápido.

dou por mim impaciente quando uma aplicação demora mais do que 4 segundos a abrir, tenho o telefone cheio de sistemas que me limpam a memória, optimizam o dispositivo, poupam bateria, tudo para ser mais rápido; a primeira coisa que faço quando vejo um vídeo é verificar quão longo é, se tem mais de um minuto, esquece, ain't nobody got time for that, e, no entanto, posso estar duas horas a ver coisas inúteis numa interface electrónica qualquer - desde que tenham individualmente menos que um minuto; aborrece-me a um nível estúpido quando tenho que esperar seis - seis! - minutos pelo metro; a preguiça de cozinhar opõe-se à comodidade de encomendar algo gorduroso e instantâneo; até secar o cabelo aborrece-me porque demora.

quando me apercebo, acontece de vez em quando, assusto-me. desde quando somos tão impacientes? por isso, dedico cinco minutos do meu precioso tempo a ver uma curta dum amigo, levo um livro para ler enquanto não chega o metro, levanto o rabo da cama para fazer um jantar decente. E compensa, a sério.

pelo menos até ao próximo momento de inércia impaciente.

2 comentários:

Frankenberg disse...

Olho ao meu redor no restaurante e em cada 5 mesas vejo casais com ou sem filhos,pelo menos 4 tem um celular em cima da mesa, ou ambos estão mexendo com os mesmos...Pobre deste nosso mundo impessoal em que não mais se conversa...Além de impacientes, Marta, somos egoístas e não damos mais o devido valor às coisas mais importantes que são a comunicação visual e auditiva com nossos amigos e familiares mais queridos. Beijos e parabéns
por seu texto!
Lode

Miguel Romeiro disse...

Completamente de acordo. Desculpa não desenvover, mas não tenho tempo.