02 outubro 2015

sobre alemães

passados dois anos a viver no norte da alemanha, há uma série de particularidades sociais que tenho vindo a notar em relação a esta diferente cultura; muitas delas inesperadas, e, muitas das que já eram esperadas, inexistentes

as generalizações fazem mal e ser demasiado literal também, por isso já vão de aviso prévio que o que se segue não quer ofender nem discriminar ninguém, quem assim o sentir que pegue nos seus trapinhos e vá julgar para outro sítio, pronto, assim ninguém se chateia

os alemães gostam de sistemacidade, isto sequer existe?, gostam de chegar a horas - entenda-se três minutos antes da hora - e não consideram aceitável chegar os dez minutinhos da praxe depois, muito menos sem avisar; isto acontece porque planeam, muito, planeam quanto tempo precisam para chegar a tal sítio com aplicações que oferecem o melhor trajecto e tipo de transporte - entenda-se também que o transporte público funciona bem - e planeam já com tempo para imprevistos; chegam com devida antecedência aos aerportos, calmos e serenos com os bilhetes impressos e check in feito, com uma postura digna de fazer qualquer latino esbaforido com uma mala com excesso de peso sentir-se mal,
os alemães são discretos em locais públicos, na hora de ponta no metro, vai tudo com a cara enfiada num livro, num kindle ou num telefone, e se, por acaso, têm que atender uma chamada, falam no volume -2 para não incomodar quem está ao lado, ou talvez por pudor, claro que isto só é possível porque o metro não faz barulho, queria vê-los a tentar falar assim na linha azul em lisboa,
os alemães gostam de regras e de cumpri-las, mas acima de tudo gostam de reprimir quem não as cumpre, com um abanar de cabeça desaprovador e um olhar condescendente, como o meu vizinho cusco de cima que mandou vir comigo quando fui levar a reciclagem a um domingo - pois, há este tipo de regras, não levar lixo à rua aos domingos, ou entre as 13 e as 15 ou depois das 20, no metro há um aviso que diz que se fores apanhado sem bilhete não só te sujeitas à multa de xis euros, mas também à humilhação perante todos os outros passageiros que pagaram, este é o nível do envolvimento com as regras por aqui,
os alemães esperam que fales alemão quando estás na Alemanha, maior parte fala bem inglês mas não consegue entender como é que vives no seu país sem dominar a língua,
os alemães são maus a gerar espontaneadade mas são óptimos a juntarem-se a ela, se houver uma festa organizada por alemães podes crer que vai começar às sete em ponto, às oito serve-se o jantar e se chegares a meia hora da praxe mais tarde, vão te perguntar porque é que te atrasaste; se houver uma festa espontânea organizada por não-alemães, os alemães não têm problema nenhum em aderir à causa e incluir-se de maneira natural,
os alemães jantam às seis ou sete, e em casos extremos, às cinco, no restaurante italiano aqui ao lado - de dono e empregados italianos, já nos disseram, quando chegámos às nove para jantar, que os da europa do sul chegaram!, compreensivos, apontando com um leve desprezo para o grupo de alemãs que claramente àquela hora já ia na terceira garrafa de vinho e no caminho certeiro para uma ressaca no dia seguinte,
os alemães tiram os sapatos quando entram em casa e usam muito mais o aspirador do que a vassoura. não interessa se é carpete, laminado, flutuante ou linóleo,
tudo está fechado ao domingo, supermercados, lojas, cafés, muitos restaurantes, os centros comerciais estão abertos, mas as lojas lá dentro estão fechadas (?!) e se calha haver feriados antes ou depois de domingo, os alemães atiram-se ao supermercado como se não fossem comer durante um mês, atulhando o carrinho com enlatados e bens não perecíveis, não vá faltar algo nos dois dias em que não podem comprar nada,
os supermercados são estranhos, são de bairro e o conceito compras do mês não existe, os alemães vão às compras a seguir ao trabalho e comprar o que vão fazer para o jantar e, vá lá, qualquer coisa para petiscar na manhã seguinte, dá para ver quem não é alemão porque anda com aquele tipo de compras de ocupar a esteira toda da caixa, mesmo para chatear o alemão de metro e noventa que veio comprar um iogurte e uma banana para a merenda,
a (pre)suposta frieza dos alemães é mais uma barreira de formalidade que não se ultrapassa com uma piadola sem profundidade ou com uma pergunta indiscreta, mas uma vez que a ultrapassas, podes contar com um amigo para a vida, talvez isso, em contraponto com a superficialidade latina, seja mais eficiente a longo prazo,
sim, são eficientes,

há de certo mil outras coisas, assim como há de certo quem não concorde comigo e quem escreva de certo tudo junto, mas assim como isso há imensa coisa no mundo, não é

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