entram no metro em pequeno grupo, as caras rosadas do frio que ainda se faz sentir apesar da eminente primavera, mas também rosadas do vigor e energia próprios desta fase pré-adolescente, um tanto quanto de show off e de vontade de ser o foco, mas sem ser com a intensidade máxima que virá decerto daqui a uns anos, um pouco de inocência infantil que atenua a irritação alheia,
as bochechas rosadas, os cabelos loiros em tranças desarrumadas em final de dia, o uniforme que não deixa de acrescentar uma certa dose de fofura, uma vem com uma guitarra, o que eleva a cena toda a um padrão de leve entretenimento, misturado com simpatia condescendente,
em plena monotonia de quem anda a cantar em todas as carruagens do metro há horas, uma diz 'pertencemos a esta organização e andamos a juntar doações para uma viagem à suécia', e lá cantam uma canção em inglês macarrónico e numa tonalidade demasiado baixa para as suas vozes infantis, a guitarra medíocre acompanha com acordes tocados sem unha e a corda sol está desafinada, em suma, uma performance fraca e francamente irritante, a elaborada descrição do aspecto físico vem agora ilustrar o fenómeno -
todos dão dinheiro
uma mulher ao meu lado, a caminho de casa do trabalho, suponho, pega na carteira assim que é anunciado o que se vai passar, um grupo de amigas a caminho da cidade, elas próprias pouco mais velhas que as artistas, vasculham as malas gigantes, de onde tiram uma carteira ainda maior, como é moda hoje em dia - perdoa a impossibilidade física, tomei liberdade poética - de onde tiram moedas pequeninas que jogam no chapéu proferido, com um sorriso híbrido de gozo e superioridade, que aqueles 3 anos a mais obviamente lhes confere, o hipster, que aparentemente ia absorto no seu jornal por detrás de óculos aviador não escuros, quebra a pose intelectual para tirar do bolso de fora daquelas malas escandinavas umas moedas também,
e eu - irritada
porquê? por ser músico, sabias que não há feminino desta palavra?, será? parece-me demasiado altivo sentir desprezo ao ponto de ficar irritada apenas pela qualidade musical
[também deixei de escrever este, mas está concluído o suficiente, parece-me]
18 julho 2018
frustrações
'ainda estou em Hamburgo, porque perdi o avião'
exalou a mulher, a meio da casa dos vinte, vestida de fato, as calças e o blazer azul escuro, a camisa azul clara, um tanto quanto amarrotada, mechas de cabelo loiro a escapar do penteado que sem dúvida há umas horas estava perfeito, uma cara livre de maquilhagem, ou então, apenas o suficiente para não se notar, a alça da mala de porão a servir de cabide improvisado para o sobretudo creme, a maleta do computador tristemente encostada,
olho para o relógio, são oito e dez,
'perdi o avião mas a culpa não foi minha, já liguei ao meu chefe e à minha colega e expliquei esta merda de situação [de realçar que o palavrão não tem uma conotação tão forte em alemão], vim andando até ao portão de embarque e a maneira como organizaram o espaço para as pessoas se sentarem é ridículo, há três portas consecutivas e um grande espaço vazio em frente, e as cadeiras são de lado, em vez de diretamente à frente das portas'
olho à minha volta, estão três vôos prestes a ser embarcados, à volta de trezentas pessoas à espera que o embarque seja anunciado, quase todos estão sentados, deixando o tal espaço vazio livre, com visibilidade para o status do vôo perto dos cem por cento, achei bastante eficiente, como maior parte das coisas na Alemanha,
[deixei de escrever, acaba tu]
exalou a mulher, a meio da casa dos vinte, vestida de fato, as calças e o blazer azul escuro, a camisa azul clara, um tanto quanto amarrotada, mechas de cabelo loiro a escapar do penteado que sem dúvida há umas horas estava perfeito, uma cara livre de maquilhagem, ou então, apenas o suficiente para não se notar, a alça da mala de porão a servir de cabide improvisado para o sobretudo creme, a maleta do computador tristemente encostada,
olho para o relógio, são oito e dez,
'perdi o avião mas a culpa não foi minha, já liguei ao meu chefe e à minha colega e expliquei esta merda de situação [de realçar que o palavrão não tem uma conotação tão forte em alemão], vim andando até ao portão de embarque e a maneira como organizaram o espaço para as pessoas se sentarem é ridículo, há três portas consecutivas e um grande espaço vazio em frente, e as cadeiras são de lado, em vez de diretamente à frente das portas'
olho à minha volta, estão três vôos prestes a ser embarcados, à volta de trezentas pessoas à espera que o embarque seja anunciado, quase todos estão sentados, deixando o tal espaço vazio livre, com visibilidade para o status do vôo perto dos cem por cento, achei bastante eficiente, como maior parte das coisas na Alemanha,
[deixei de escrever, acaba tu]
05 janeiro 2018
janeiro é início
sabe a início de algo, mas todos os dias são inícios, releio-me - e isto pode parecer mais do mesmo, mas este blog é meu, afinal, eu repito-me quanto quiser - releio-me e acho-me ultrapassada, não num sentido pejorativo (sempre pensei que se escrevia prejorativo), mas no sentido positivo de me achar mais do que era quando escrevi o último post, sinto.me totó por me orgulhar de fazer o irs sozinha, somos adultos e é infantil ficar feliz com coisas dessas, volta e meia fico feliz, sim, mas em posterior análise encolho-me de vergonha alheia do meu próprio eu (ultra)passado, acabo por ficar dividida entre o ser no momento, mesmo significando ingénua, infantil, egoísta, mimada, feliz, ou ser adulta e ser o que quer que seja esperado de mim naquele momento, sim, senhor, não, senhor, tudo em conformidade com o padrão,
vamos mudar de tom
este ano fiz coisas pela primeira vez:
- comprei e usei um sombreador de sobrancelhas
- li um livro erótico (ainda me nego, estupidamente, os prazeres da pornografia tradicional)
- admiti(-me) que não faço suficiente com a minha música
- duvidei da minha relação
- percebi que tenho certeza dessa relação
- reli e corrigi textos antes de os publicar
as resoluções para 2018 são
- iguais a muitas outras
- de pouco interesse a outros que não sejam eu
- num sítio onde só eu as leio
são num sítio. é difícil dar explicar o ser e o estar. penso, logo existo. estou, logo sou?
janeiro sabe a início e esperamos sempre por esse início. não estou, ainda não está, já está quase. mas, na verdade, já somos desde sempre. por isso, todos os dias são inícios.
vamos mudar de tom
este ano fiz coisas pela primeira vez:
- comprei e usei um sombreador de sobrancelhas
- li um livro erótico (ainda me nego, estupidamente, os prazeres da pornografia tradicional)
- admiti(-me) que não faço suficiente com a minha música
- duvidei da minha relação
- percebi que tenho certeza dessa relação
- reli e corrigi textos antes de os publicar
as resoluções para 2018 são
- iguais a muitas outras
- de pouco interesse a outros que não sejam eu
- num sítio onde só eu as leio
são num sítio. é difícil dar explicar o ser e o estar. penso, logo existo. estou, logo sou?
janeiro sabe a início e esperamos sempre por esse início. não estou, ainda não está, já está quase. mas, na verdade, já somos desde sempre. por isso, todos os dias são inícios.
28 maio 2017
olha!
voltei, por breves instantes, momentos efémeros, voltei, depois de reler isto tudo e de, sinceramente, ficar orgulhosa de mim própria, porque por mais ingénua, naïve, infantil que tenha sido - e quem não tem direito de o ser? - acho que escrevi coisas boas, coisas muito boas, frases que quero guardar, talvez seja por isso que ainda não apaguei isto aqui, nem que seja para ter um registo de mim própria, já que claramente a era é digital, uma espécie de diário digital parece-me apropriado,
ainda sou criança, se me comparar com os que casam, têm filhos, compram casas,
já não sou criança, se me comparar com os que ficaram, pago renda, tenho seguros mil, faço o meu próprio irs, e não há ninguém que o faça por mim,
a vida está boa, em cada ano sinto evolução, algumas coisas ficam para trás, ou, pelo menos, atrasadas, mas isso é em todas as fases de vida, acho,
achismos, achismos!
os amigos que ficaram são para valer e isso faz-me mesmo feliz, aqui são dez da noite e ainda é de dia, até já
ainda sou criança, se me comparar com os que casam, têm filhos, compram casas,
já não sou criança, se me comparar com os que ficaram, pago renda, tenho seguros mil, faço o meu próprio irs, e não há ninguém que o faça por mim,
a vida está boa, em cada ano sinto evolução, algumas coisas ficam para trás, ou, pelo menos, atrasadas, mas isso é em todas as fases de vida, acho,
achismos, achismos!
os amigos que ficaram são para valer e isso faz-me mesmo feliz, aqui são dez da noite e ainda é de dia, até já
09 dezembro 2015
hard things
[first post in english, guessing it was about time]
you know, the hardest thing about living abroad is not adapting to the culture, learning the language, finding an apartment, getting a job,
the hardest thing is knowing, in your heart, that it'll be years before you can say you have a true, deep friendship in this new country
the hardest thing is knowing that your real friends and family are only a whatsapp message or skype call or facebook message away, but that it is not immediate; there's no calling for a spontaneous coffee somewhere, no instant comfort when something's up, no 'can you come over later today'
you tend to get together with people you are somehow familiar with; most of the time, with people who come from the same or neighbouring country as yours;
the thing is - and you only realize it after you've tripped on a few disappointments - the only thing these people have in common with you is the fact that they come from your country;
you are involuntarily part of a group just because of your nationality. you think, Hey, cool, I can relate to these people, I am not alone. You don't however predict that these people might not be cool; they might be racist, childish, stupid, selfish or they might just not be your kind of person. but, because of your heritage, you turn to it, over and over again, because somewhere inside you there is something that tricks you into thinking it's good belonging in this group.
actually, it feels nice to belong in any group. we are social creatures, we need this comfort. it's just that this particular group... well, it sucks. and the hardest thing is, you know you want out - you don't really like any of the people there - but what then? you'll be the excluded member, being judged because you don't engage in activities with a group of people you don't like. tricky sticky situation.
the hardest thing, I'm telling you, is getting your head above the surface in this heavy atmosphere of silently enforced friendship.
and realizing there so many nice people out there, so many.
you know, the hardest thing about living abroad is not adapting to the culture, learning the language, finding an apartment, getting a job,
the hardest thing is knowing, in your heart, that it'll be years before you can say you have a true, deep friendship in this new country
the hardest thing is knowing that your real friends and family are only a whatsapp message or skype call or facebook message away, but that it is not immediate; there's no calling for a spontaneous coffee somewhere, no instant comfort when something's up, no 'can you come over later today'
you tend to get together with people you are somehow familiar with; most of the time, with people who come from the same or neighbouring country as yours;
the thing is - and you only realize it after you've tripped on a few disappointments - the only thing these people have in common with you is the fact that they come from your country;
you are involuntarily part of a group just because of your nationality. you think, Hey, cool, I can relate to these people, I am not alone. You don't however predict that these people might not be cool; they might be racist, childish, stupid, selfish or they might just not be your kind of person. but, because of your heritage, you turn to it, over and over again, because somewhere inside you there is something that tricks you into thinking it's good belonging in this group.
actually, it feels nice to belong in any group. we are social creatures, we need this comfort. it's just that this particular group... well, it sucks. and the hardest thing is, you know you want out - you don't really like any of the people there - but what then? you'll be the excluded member, being judged because you don't engage in activities with a group of people you don't like. tricky sticky situation.
the hardest thing, I'm telling you, is getting your head above the surface in this heavy atmosphere of silently enforced friendship.
and realizing there so many nice people out there, so many.
02 outubro 2015
sobre alemães
passados dois anos a viver no norte da alemanha, há uma série de particularidades sociais que tenho vindo a notar em relação a esta diferente cultura; muitas delas inesperadas, e, muitas das que já eram esperadas, inexistentes
as generalizações fazem mal e ser demasiado literal também, por isso já vão de aviso prévio que o que se segue não quer ofender nem discriminar ninguém, quem assim o sentir que pegue nos seus trapinhos e vá julgar para outro sítio, pronto, assim ninguém se chateia
os alemães gostam de sistemacidade, isto sequer existe?, gostam de chegar a horas - entenda-se três minutos antes da hora - e não consideram aceitável chegar os dez minutinhos da praxe depois, muito menos sem avisar; isto acontece porque planeam, muito, planeam quanto tempo precisam para chegar a tal sítio com aplicações que oferecem o melhor trajecto e tipo de transporte - entenda-se também que o transporte público funciona bem - e planeam já com tempo para imprevistos; chegam com devida antecedência aos aerportos, calmos e serenos com os bilhetes impressos e check in feito, com uma postura digna de fazer qualquer latino esbaforido com uma mala com excesso de peso sentir-se mal,
os alemães são discretos em locais públicos, na hora de ponta no metro, vai tudo com a cara enfiada num livro, num kindle ou num telefone, e se, por acaso, têm que atender uma chamada, falam no volume -2 para não incomodar quem está ao lado, ou talvez por pudor, claro que isto só é possível porque o metro não faz barulho, queria vê-los a tentar falar assim na linha azul em lisboa,
os alemães gostam de regras e de cumpri-las, mas acima de tudo gostam de reprimir quem não as cumpre, com um abanar de cabeça desaprovador e um olhar condescendente, como o meu vizinho cusco de cima que mandou vir comigo quando fui levar a reciclagem a um domingo - pois, há este tipo de regras, não levar lixo à rua aos domingos, ou entre as 13 e as 15 ou depois das 20, no metro há um aviso que diz que se fores apanhado sem bilhete não só te sujeitas à multa de xis euros, mas também à humilhação perante todos os outros passageiros que pagaram, este é o nível do envolvimento com as regras por aqui,
os alemães esperam que fales alemão quando estás na Alemanha, maior parte fala bem inglês mas não consegue entender como é que vives no seu país sem dominar a língua,
os alemães são maus a gerar espontaneadade mas são óptimos a juntarem-se a ela, se houver uma festa organizada por alemães podes crer que vai começar às sete em ponto, às oito serve-se o jantar e se chegares a meia hora da praxe mais tarde, vão te perguntar porque é que te atrasaste; se houver uma festa espontânea organizada por não-alemães, os alemães não têm problema nenhum em aderir à causa e incluir-se de maneira natural,
os alemães jantam às seis ou sete, e em casos extremos, às cinco, no restaurante italiano aqui ao lado - de dono e empregados italianos, já nos disseram, quando chegámos às nove para jantar, que os da europa do sul chegaram!, compreensivos, apontando com um leve desprezo para o grupo de alemãs que claramente àquela hora já ia na terceira garrafa de vinho e no caminho certeiro para uma ressaca no dia seguinte,
os alemães tiram os sapatos quando entram em casa e usam muito mais o aspirador do que a vassoura. não interessa se é carpete, laminado, flutuante ou linóleo,
tudo está fechado ao domingo, supermercados, lojas, cafés, muitos restaurantes, os centros comerciais estão abertos, mas as lojas lá dentro estão fechadas (?!) e se calha haver feriados antes ou depois de domingo, os alemães atiram-se ao supermercado como se não fossem comer durante um mês, atulhando o carrinho com enlatados e bens não perecíveis, não vá faltar algo nos dois dias em que não podem comprar nada,
os supermercados são estranhos, são de bairro e o conceito compras do mês não existe, os alemães vão às compras a seguir ao trabalho e comprar o que vão fazer para o jantar e, vá lá, qualquer coisa para petiscar na manhã seguinte, dá para ver quem não é alemão porque anda com aquele tipo de compras de ocupar a esteira toda da caixa, mesmo para chatear o alemão de metro e noventa que veio comprar um iogurte e uma banana para a merenda,
a (pre)suposta frieza dos alemães é mais uma barreira de formalidade que não se ultrapassa com uma piadola sem profundidade ou com uma pergunta indiscreta, mas uma vez que a ultrapassas, podes contar com um amigo para a vida, talvez isso, em contraponto com a superficialidade latina, seja mais eficiente a longo prazo,
sim, são eficientes,
há de certo mil outras coisas, assim como há de certo quem não concorde comigo e quem escreva de certo tudo junto, mas assim como isso há imensa coisa no mundo, não é
as generalizações fazem mal e ser demasiado literal também, por isso já vão de aviso prévio que o que se segue não quer ofender nem discriminar ninguém, quem assim o sentir que pegue nos seus trapinhos e vá julgar para outro sítio, pronto, assim ninguém se chateia
os alemães gostam de sistemacidade, isto sequer existe?, gostam de chegar a horas - entenda-se três minutos antes da hora - e não consideram aceitável chegar os dez minutinhos da praxe depois, muito menos sem avisar; isto acontece porque planeam, muito, planeam quanto tempo precisam para chegar a tal sítio com aplicações que oferecem o melhor trajecto e tipo de transporte - entenda-se também que o transporte público funciona bem - e planeam já com tempo para imprevistos; chegam com devida antecedência aos aerportos, calmos e serenos com os bilhetes impressos e check in feito, com uma postura digna de fazer qualquer latino esbaforido com uma mala com excesso de peso sentir-se mal,
os alemães são discretos em locais públicos, na hora de ponta no metro, vai tudo com a cara enfiada num livro, num kindle ou num telefone, e se, por acaso, têm que atender uma chamada, falam no volume -2 para não incomodar quem está ao lado, ou talvez por pudor, claro que isto só é possível porque o metro não faz barulho, queria vê-los a tentar falar assim na linha azul em lisboa,
os alemães gostam de regras e de cumpri-las, mas acima de tudo gostam de reprimir quem não as cumpre, com um abanar de cabeça desaprovador e um olhar condescendente, como o meu vizinho cusco de cima que mandou vir comigo quando fui levar a reciclagem a um domingo - pois, há este tipo de regras, não levar lixo à rua aos domingos, ou entre as 13 e as 15 ou depois das 20, no metro há um aviso que diz que se fores apanhado sem bilhete não só te sujeitas à multa de xis euros, mas também à humilhação perante todos os outros passageiros que pagaram, este é o nível do envolvimento com as regras por aqui,
os alemães esperam que fales alemão quando estás na Alemanha, maior parte fala bem inglês mas não consegue entender como é que vives no seu país sem dominar a língua,
os alemães são maus a gerar espontaneadade mas são óptimos a juntarem-se a ela, se houver uma festa organizada por alemães podes crer que vai começar às sete em ponto, às oito serve-se o jantar e se chegares a meia hora da praxe mais tarde, vão te perguntar porque é que te atrasaste; se houver uma festa espontânea organizada por não-alemães, os alemães não têm problema nenhum em aderir à causa e incluir-se de maneira natural,
os alemães jantam às seis ou sete, e em casos extremos, às cinco, no restaurante italiano aqui ao lado - de dono e empregados italianos, já nos disseram, quando chegámos às nove para jantar, que os da europa do sul chegaram!, compreensivos, apontando com um leve desprezo para o grupo de alemãs que claramente àquela hora já ia na terceira garrafa de vinho e no caminho certeiro para uma ressaca no dia seguinte,
os alemães tiram os sapatos quando entram em casa e usam muito mais o aspirador do que a vassoura. não interessa se é carpete, laminado, flutuante ou linóleo,
tudo está fechado ao domingo, supermercados, lojas, cafés, muitos restaurantes, os centros comerciais estão abertos, mas as lojas lá dentro estão fechadas (?!) e se calha haver feriados antes ou depois de domingo, os alemães atiram-se ao supermercado como se não fossem comer durante um mês, atulhando o carrinho com enlatados e bens não perecíveis, não vá faltar algo nos dois dias em que não podem comprar nada,
os supermercados são estranhos, são de bairro e o conceito compras do mês não existe, os alemães vão às compras a seguir ao trabalho e comprar o que vão fazer para o jantar e, vá lá, qualquer coisa para petiscar na manhã seguinte, dá para ver quem não é alemão porque anda com aquele tipo de compras de ocupar a esteira toda da caixa, mesmo para chatear o alemão de metro e noventa que veio comprar um iogurte e uma banana para a merenda,
a (pre)suposta frieza dos alemães é mais uma barreira de formalidade que não se ultrapassa com uma piadola sem profundidade ou com uma pergunta indiscreta, mas uma vez que a ultrapassas, podes contar com um amigo para a vida, talvez isso, em contraponto com a superficialidade latina, seja mais eficiente a longo prazo,
sim, são eficientes,
há de certo mil outras coisas, assim como há de certo quem não concorde comigo e quem escreva de certo tudo junto, mas assim como isso há imensa coisa no mundo, não é
20 julho 2015
tempo
dou por mim assustada com o mundo em que vivemos
calma, não estou a falar do aquecimento global, nem do último rinoceronte em áfrica, nem do desesperante sistema político, nem da merkel a mandar emigrantes embora, nem dos travestis assassinados no brasil, nem dos 4 euros à hora que profissionais qualificados recebem,
estou a falar do nosso mundinho, consciente mas estranhamente desapegado desses problemas maiores, que, na realidade, nem sequer nos afectam pessoalmente, estou a falar do nosso mundinho cibernético,
queremos tudo rápido. bem rápido.
dou por mim impaciente quando uma aplicação demora mais do que 4 segundos a abrir, tenho o telefone cheio de sistemas que me limpam a memória, optimizam o dispositivo, poupam bateria, tudo para ser mais rápido; a primeira coisa que faço quando vejo um vídeo é verificar quão longo é, se tem mais de um minuto, esquece, ain't nobody got time for that, e, no entanto, posso estar duas horas a ver coisas inúteis numa interface electrónica qualquer - desde que tenham individualmente menos que um minuto; aborrece-me a um nível estúpido quando tenho que esperar seis - seis! - minutos pelo metro; a preguiça de cozinhar opõe-se à comodidade de encomendar algo gorduroso e instantâneo; até secar o cabelo aborrece-me porque demora.
quando me apercebo, acontece de vez em quando, assusto-me. desde quando somos tão impacientes? por isso, dedico cinco minutos do meu precioso tempo a ver uma curta dum amigo, levo um livro para ler enquanto não chega o metro, levanto o rabo da cama para fazer um jantar decente. E compensa, a sério.
pelo menos até ao próximo momento de inércia impaciente.
calma, não estou a falar do aquecimento global, nem do último rinoceronte em áfrica, nem do desesperante sistema político, nem da merkel a mandar emigrantes embora, nem dos travestis assassinados no brasil, nem dos 4 euros à hora que profissionais qualificados recebem,
estou a falar do nosso mundinho, consciente mas estranhamente desapegado desses problemas maiores, que, na realidade, nem sequer nos afectam pessoalmente, estou a falar do nosso mundinho cibernético,
queremos tudo rápido. bem rápido.
dou por mim impaciente quando uma aplicação demora mais do que 4 segundos a abrir, tenho o telefone cheio de sistemas que me limpam a memória, optimizam o dispositivo, poupam bateria, tudo para ser mais rápido; a primeira coisa que faço quando vejo um vídeo é verificar quão longo é, se tem mais de um minuto, esquece, ain't nobody got time for that, e, no entanto, posso estar duas horas a ver coisas inúteis numa interface electrónica qualquer - desde que tenham individualmente menos que um minuto; aborrece-me a um nível estúpido quando tenho que esperar seis - seis! - minutos pelo metro; a preguiça de cozinhar opõe-se à comodidade de encomendar algo gorduroso e instantâneo; até secar o cabelo aborrece-me porque demora.
quando me apercebo, acontece de vez em quando, assusto-me. desde quando somos tão impacientes? por isso, dedico cinco minutos do meu precioso tempo a ver uma curta dum amigo, levo um livro para ler enquanto não chega o metro, levanto o rabo da cama para fazer um jantar decente. E compensa, a sério.
pelo menos até ao próximo momento de inércia impaciente.
16 fevereiro 2015
o pior jantar
sinto-me segura em contar esta história porque, apesar de mesmo assim não sentir necessidade de mencionar nomes, sei que és daqueles que, se descobrires que é de ti que falo, se vai rir à gargalhada,
pois o meu pior jantar do último ano, vá, foi em casa de um bom amigo
o jantar em si não foi nada mau, palavra de honra, o pretexto de já não nos vermos há demasiado tempo aliado ao carinho que tenho pelos teus pais, e, gosto de pensar, vice-versa, manifestou-se na tua voz, carregada do stress do dia, naqueles dois minutos em que afinal até conseguimos encontrarmo-nos telefonicamente, Anda jantar a minha casa hoje,
fui, as piadinhas do teu pai, a curiosidade e preocupação da tua mãe com a minha vida de emigrante, ajudei a colocar a mesa, como boa hóspede que sou, sirvo-me um copo de sumo e, ao ver o prato da noite - bifinhos com cogumelos e natas - um pequeno calor indisposto começou a gerar-se no fundo a minha garganta, parecido com aquele medo de quem sabe que está prestes a receber más notícias,
tu, na tua vida de afazeres variados, no meio dos telefonemas não atendidos e das mensagens não respondidas e dos Epá, tou muita cansado, hoje não posso, que estão todos perdoados, não te guardo rancor, mas a verdade é que tu, no meio disto tudo, esqueceste-te das pequenas coisas que nos tornam mais do que meros conhecidos, como, por exemplo, que eu não como natas
não gosto, é teima, psicologicamente repulsa-me aquele molho branco, espesso, como se estivesse a engolir argamassa com noz moscada, e nem vamos falar de bechamel, senão não termino de escrever este texto
fiz cara de pânico - interior, e comi tudo no meu prato, e contra a minha própria teimosia, estava óptimo, decidi experimentar mais, apesar de haver pouca coisa que não como e decidi também perdoar-te por não te teres lembrado,
depois fomos beber umas cervejas, ao jardim da dita cuja, encontrar umas caras conhecidas de outros tempos, um acaso doce e amargo ao mesmo tempo, no final da noite, levaste-me até ao meu carro, tinha deixado em tua casa, e eu já estava a sentir uma leve agonia que o arroto discreto não estava a aliviar, de certo que duas cervejas não chegam para este tipo de sensação, durante a viagem fui falando menos e menos, chego ao meu carro e dou-te um abraço rápido e um obrigada pelo jantar, e sigo, a andar devagar e a evitar irregularidades na estrada porque agora já é certo que vou vomitar eventualmente,
se há coisa que detesto mais que natas é vomitar
ainda são vinte minutos de viagem, faço um plano, uma lista, vou por este caminho, quando chegar a casa estaciono na rua, vomito e depois subo para casa, qual quê, aguentei-me que nem uma guerreira, a engolir ar e a chamar nomes às lombas, mal entro na minha rua, algo cede em mim, um bocado como o xixi aflito quando metes a chave na porta de casa, e só tenho tempo de encostar, puxar o travão de mão, abrir a porta e deitar tudo cá para fora, de cinto posto e tudo,
isto dura uns cinco minutos. fecho a porta, tiro a camisa e limpo a boca e a testa suada, levo o carro os vinte metros que faltam para estacionar e subo para casa, onde o meu pai olha para mim e de certo acha que apanhei uma piela daquelas, eu a tremer lá lhe explico das natas, lavo os dentes com prazer, tiro a roupa mal cheirosa e deito-me
escusado será dizer, nunca mais comi natas
pois o meu pior jantar do último ano, vá, foi em casa de um bom amigo
o jantar em si não foi nada mau, palavra de honra, o pretexto de já não nos vermos há demasiado tempo aliado ao carinho que tenho pelos teus pais, e, gosto de pensar, vice-versa, manifestou-se na tua voz, carregada do stress do dia, naqueles dois minutos em que afinal até conseguimos encontrarmo-nos telefonicamente, Anda jantar a minha casa hoje,
fui, as piadinhas do teu pai, a curiosidade e preocupação da tua mãe com a minha vida de emigrante, ajudei a colocar a mesa, como boa hóspede que sou, sirvo-me um copo de sumo e, ao ver o prato da noite - bifinhos com cogumelos e natas - um pequeno calor indisposto começou a gerar-se no fundo a minha garganta, parecido com aquele medo de quem sabe que está prestes a receber más notícias,
tu, na tua vida de afazeres variados, no meio dos telefonemas não atendidos e das mensagens não respondidas e dos Epá, tou muita cansado, hoje não posso, que estão todos perdoados, não te guardo rancor, mas a verdade é que tu, no meio disto tudo, esqueceste-te das pequenas coisas que nos tornam mais do que meros conhecidos, como, por exemplo, que eu não como natas
não gosto, é teima, psicologicamente repulsa-me aquele molho branco, espesso, como se estivesse a engolir argamassa com noz moscada, e nem vamos falar de bechamel, senão não termino de escrever este texto
fiz cara de pânico - interior, e comi tudo no meu prato, e contra a minha própria teimosia, estava óptimo, decidi experimentar mais, apesar de haver pouca coisa que não como e decidi também perdoar-te por não te teres lembrado,
depois fomos beber umas cervejas, ao jardim da dita cuja, encontrar umas caras conhecidas de outros tempos, um acaso doce e amargo ao mesmo tempo, no final da noite, levaste-me até ao meu carro, tinha deixado em tua casa, e eu já estava a sentir uma leve agonia que o arroto discreto não estava a aliviar, de certo que duas cervejas não chegam para este tipo de sensação, durante a viagem fui falando menos e menos, chego ao meu carro e dou-te um abraço rápido e um obrigada pelo jantar, e sigo, a andar devagar e a evitar irregularidades na estrada porque agora já é certo que vou vomitar eventualmente,
se há coisa que detesto mais que natas é vomitar
ainda são vinte minutos de viagem, faço um plano, uma lista, vou por este caminho, quando chegar a casa estaciono na rua, vomito e depois subo para casa, qual quê, aguentei-me que nem uma guerreira, a engolir ar e a chamar nomes às lombas, mal entro na minha rua, algo cede em mim, um bocado como o xixi aflito quando metes a chave na porta de casa, e só tenho tempo de encostar, puxar o travão de mão, abrir a porta e deitar tudo cá para fora, de cinto posto e tudo,
isto dura uns cinco minutos. fecho a porta, tiro a camisa e limpo a boca e a testa suada, levo o carro os vinte metros que faltam para estacionar e subo para casa, onde o meu pai olha para mim e de certo acha que apanhei uma piela daquelas, eu a tremer lá lhe explico das natas, lavo os dentes com prazer, tiro a roupa mal cheirosa e deito-me
escusado será dizer, nunca mais comi natas
10 fevereiro 2015
segundo
o segundo na verdade é o primeiro, porque quando o começas a contar, ele já terminou, tornando-se assim, naquele instante, único, portanto, o primeiro, se não fosse por isso, talvez merecesse ser chamado primeiro em vez de segundo porque durante esse espaço de tempo muita coisa pode acontecer, primeiro, primário, entendes
também pode não acontecer nada de mais - não te baralhes com a dupla negação
mas um segundo a mais é o tempo de cozeres em demasia um ravioli de gema de ovo, assim como um segundo a menos é o tempo de perderes o intercidades para o porto, um olhar que fica aquele segundo a mais traz uma série de intenções subentendidas que não existiriam se não fosse por esse segundo, um segundo a menos naquele silêncio entre o final da música e do aplauso pode estragar toda uma sinfonia, um segundo a mais a levar a panela do fogão à mesa sem pegas porque ficaste com preguiça de as procurar pode doer um bocado e, no entanto, era só preciso mais um segundo para deixares as ditas pegas penduradas na porta do forno em vez de na bancada
no nosso primeiro beijo eu tinha dois segundos - primários - queria apanhar o último comboio para casa e não queria que ficasses com dúvidas da tarde - alcântara, cafés, joelhos a tocar debaixo da mesa, chiado, jantar, mostarda a cair-te do queixo, mais cafés, e cigarros, faz-me um - mas tinha mesmo que apanhar o comboio, nesses dois segundos que tinha, escolhi dar-te um em forma de beijo desajeitado na tua boca despreparada e depois correr, sem olhar para trás, para as portas que fechavam a apitar
também pode não acontecer nada de mais - não te baralhes com a dupla negação
mas um segundo a mais é o tempo de cozeres em demasia um ravioli de gema de ovo, assim como um segundo a menos é o tempo de perderes o intercidades para o porto, um olhar que fica aquele segundo a mais traz uma série de intenções subentendidas que não existiriam se não fosse por esse segundo, um segundo a menos naquele silêncio entre o final da música e do aplauso pode estragar toda uma sinfonia, um segundo a mais a levar a panela do fogão à mesa sem pegas porque ficaste com preguiça de as procurar pode doer um bocado e, no entanto, era só preciso mais um segundo para deixares as ditas pegas penduradas na porta do forno em vez de na bancada
no nosso primeiro beijo eu tinha dois segundos - primários - queria apanhar o último comboio para casa e não queria que ficasses com dúvidas da tarde - alcântara, cafés, joelhos a tocar debaixo da mesa, chiado, jantar, mostarda a cair-te do queixo, mais cafés, e cigarros, faz-me um - mas tinha mesmo que apanhar o comboio, nesses dois segundos que tinha, escolhi dar-te um em forma de beijo desajeitado na tua boca despreparada e depois correr, sem olhar para trás, para as portas que fechavam a apitar
11 dezembro 2014
estão-me presentes
[n'alma]
como toda a gente que se preze - se pararmos para pensar, as generalizações são tão injustas - eu tenho aqueles amigos aos quais chamo amigos, mas que podia chamar de irmãos, namorados, pais, conhecidos, inimigos, porque de tão amigos que são muitas vezes se confundem com todos estes outros papéis sociais que acabei de enunciar,
são um pouco opostos um do outro, primeira e obviamente no sexo, depois de maneira mais subtil no jeito de ser, para quem está de fora até dá para ver o quão obviamente diferentes são, mas eu que estou dentro, a outra ponta do triângulo que apesar de tudo é equilátero, não me são tão claras as diferenças,
como um triângulo equilátero, somos complementos
tentei e apaguei todos os adjectivos que pensava que vos caracterizavam; afinal, um de vocês disse-me, Não especifiques, generaliza, e outro, Que as estatísticas assustam, e uma lista é nada mais que uma estatística disfarçada de palavras, uma categorização de coisas, através da qual podes ver qual a mais frequente, qual a menos, qual vem em primeiro, enfim, a estatística e as listas são primas afastadas que têm o mesmo avô
tenho pensado em vocês e que se foda se este sítio é para desabafos pessoais ou escritos de qualidade e interesse, para mim interessa, e é quase Natal, época dos presentes, a mim quem está presente são vocês.
como toda a gente que se preze - se pararmos para pensar, as generalizações são tão injustas - eu tenho aqueles amigos aos quais chamo amigos, mas que podia chamar de irmãos, namorados, pais, conhecidos, inimigos, porque de tão amigos que são muitas vezes se confundem com todos estes outros papéis sociais que acabei de enunciar,
são um pouco opostos um do outro, primeira e obviamente no sexo, depois de maneira mais subtil no jeito de ser, para quem está de fora até dá para ver o quão obviamente diferentes são, mas eu que estou dentro, a outra ponta do triângulo que apesar de tudo é equilátero, não me são tão claras as diferenças,
como um triângulo equilátero, somos complementos
tentei e apaguei todos os adjectivos que pensava que vos caracterizavam; afinal, um de vocês disse-me, Não especifiques, generaliza, e outro, Que as estatísticas assustam, e uma lista é nada mais que uma estatística disfarçada de palavras, uma categorização de coisas, através da qual podes ver qual a mais frequente, qual a menos, qual vem em primeiro, enfim, a estatística e as listas são primas afastadas que têm o mesmo avô
tenho pensado em vocês e que se foda se este sítio é para desabafos pessoais ou escritos de qualidade e interesse, para mim interessa, e é quase Natal, época dos presentes, a mim quem está presente são vocês.
04 dezembro 2014
estatísticas
se quisesse, fazia estatísticas da minha vida para me chocar a mim mesma. eu gosto de estatísticas, assim como gosto de listas, de riscar coisas das listas e de ambientes limpos e arrumados - embora no caos também haja uma certa paz.
começava logo por estatisticar que no último ano escrevi menos de um post por mês, mas imediatamente fazia a estatística de que mais de um quarto desses posts foram sobre o facto de não escrever, e este tipo de redundância cansa o leitor, que, estatisticamente, já está cansado do seu dia e se por acaso por aqui pousa é para relaxar, e não deparar-se com dúvidas metafísicas do foro escrito,
por isso, já chega Marta, martolas foi só fruto da adolescente em mim a não querer ser séria e a achar que as maiúsculas são passíveis de serem esquecidas, da altura que escrevia com pontos finais e de exclamação e às vezes de exclamação E de interrogação, tu sabes como são esses anos, mas já estou a falar de escrever, e agora a escrever que estou a falar de escrever, enfim, podia estar aqui o dia todo nisto, mas tenho que ir trabalhar,
a estatística que mais me custa neste momento: a frequência com que comunico com vocês os dois. sempre fomos independentes, cada um com o seu (des)foco, mas um ano e meio depois de deixarmos de partilhar sistematicamente o mesmo espaço, tenho, estatísticamente, saudades vossas.
11 outubro 2014
parei
deixei de escrever. parei.
aqui, no meu caderno, na minha cabeça.
cresci? parece-me ridículo. relativizar, que é praticamente a mesma coisa que crescer, parece-me uma palavra mais adequada.
vou ver se me ilumino, peraí
aqui, no meu caderno, na minha cabeça.
cresci? parece-me ridículo. relativizar, que é praticamente a mesma coisa que crescer, parece-me uma palavra mais adequada.
vou ver se me ilumino, peraí
30 junho 2014
quando deixas de acreditar
apesar de tudo aparentemente continuar bem, ou até poder continuar bem, ou eventualmente poderá ficar bem.
mas deixaste de acreditar.
mas deixaste de acreditar.
27 junho 2014
mais efémero (atrasado)
A vida do ser humano é conduzida à procura de estabilidade. É. Seja qual ela for. Quando atingimos um período em que as coisas nos parecem estáveis, assentamos na poltrona, num falso bem-estar. Falso porque não há estabilidade. Há rotina, há hábito. E, nesta brincadeira de ser jovem adulto, de já não ser estudante, de ser emigra, não há uma ponta de estabilidade na vidinha que levamos. Apetece escrever este texto com palavrões. Merda, caralho. Como quem diz, Epá, bolas.
Tudo é efémero, como já escrevi num conselho a uma amiga, com tal clarividência que até parece que não era eu a escrever. Porque ao final do dia, aqui deste lado também tudo é efémero. Passível de terminar.
E se?
Se terminar?
Colocar tudo em causa devido a análises exageradas. Ser recipiente duma irritação de quem sabe que não tem toda a razão mas que, no entanto, dorme aqui tranquilo, como faz todas as noites há quase um ano.
Estabilidade efémera.
Foda-se.
Tudo é efémero, como já escrevi num conselho a uma amiga, com tal clarividência que até parece que não era eu a escrever. Porque ao final do dia, aqui deste lado também tudo é efémero. Passível de terminar.
E se?
Se terminar?
Colocar tudo em causa devido a análises exageradas. Ser recipiente duma irritação de quem sabe que não tem toda a razão mas que, no entanto, dorme aqui tranquilo, como faz todas as noites há quase um ano.
Estabilidade efémera.
Foda-se.
08 junho 2014
neste momento
sopa ao lume
brigadeiros à espera de serem enrolados
uma festa daqui a pouco
trinta graus lá fora
chuva tropical
brigadeiros à espera de serem enrolados
uma festa daqui a pouco
trinta graus lá fora
chuva tropical
mudar
vou-me deixar dessa cínica pretensão de que só escrevo textos bem pensados, com qualidade literária, mas que no fundo são só desabafos pessoais mascarados de recursos linguísticos, talvez passe a ter um blog com pontos finais, com sátiras do quotidiano, com perguntas abertas para os leitores, mas na verdade não sei se consigo pull it off - já te tinha contado que não sei falar português?
vamo lá a ver.
vamo lá a ver.
01 junho 2014
finalmente aconteci
engraçado como pequenos problemas se podem tornar grandes num ímpeto de emoção e overthinking, mas mais engraçado é como grandes problemas se tornam pequenos uma vez que aprendemos o dom de relativizar, é uma coisa que vem com o tempo, com a vida, e não me apetece explicar que não vivi assim tanto e que não estou a ser hipócrita,
eu finalmente aconteci, nas coisas pequenas - grandes - da minha vida, estes 10 meses de prova de fogo provaram-me que o fogo é tão grande quanto o queremos ver - as big as we want to see it -, o meu português não é o que era,
descobri que esta é uma plataforma através da qual várias pessoas que me são queridas me vêm visitar, embora eu não saiba, embora eu não veja. deixa um comentário para a próxima, a mim sabe-me bem e a ti aposto que também, e como descobri isso, decidi, após vários meses de escritos irregulares e amorfos, fazer uma lista de coisas que já se passaram, só para saberes
decidi mudar de país, com três mil euros no bolso e um Amor como guia
passados três meses, a poupança já era, mas em vez dela veio uma casa - inha -, um trabalho, uma independência como nunca senti antes
veio também muitas saudades de portugal e dos amigos e dos cafés e principalmente do conforto de saber que qualquer um deles estava à distância de um telefonema
vieram alturas difíceis, tristes, solitárias, apesar do Amor continuar um pilar central que me manteve de pé,
aprendi uma nova língua, uma nova cultura,
nessa nova língua consegui ligar para um atendimento ao cliente, dar direcções a uma pessoa na rua e ter uma entrevista de emprego - emprego esse que consegui
plantei salsa na minha varanda e está a crescer
a nossa casa já sabe a casa
já tive visitas e visitei, nunca. nunca subestimes o poder de uma visita, é tão bom, sejas visitante ou visitado,
já temos talheres e pratos suficientes para mais que dois
pronto, vou tomar um banho de banheira
eu finalmente aconteci, nas coisas pequenas - grandes - da minha vida, estes 10 meses de prova de fogo provaram-me que o fogo é tão grande quanto o queremos ver - as big as we want to see it -, o meu português não é o que era,
descobri que esta é uma plataforma através da qual várias pessoas que me são queridas me vêm visitar, embora eu não saiba, embora eu não veja. deixa um comentário para a próxima, a mim sabe-me bem e a ti aposto que também, e como descobri isso, decidi, após vários meses de escritos irregulares e amorfos, fazer uma lista de coisas que já se passaram, só para saberes
decidi mudar de país, com três mil euros no bolso e um Amor como guia
passados três meses, a poupança já era, mas em vez dela veio uma casa - inha -, um trabalho, uma independência como nunca senti antes
veio também muitas saudades de portugal e dos amigos e dos cafés e principalmente do conforto de saber que qualquer um deles estava à distância de um telefonema
vieram alturas difíceis, tristes, solitárias, apesar do Amor continuar um pilar central que me manteve de pé,
aprendi uma nova língua, uma nova cultura,
nessa nova língua consegui ligar para um atendimento ao cliente, dar direcções a uma pessoa na rua e ter uma entrevista de emprego - emprego esse que consegui
plantei salsa na minha varanda e está a crescer
a nossa casa já sabe a casa
já tive visitas e visitei, nunca. nunca subestimes o poder de uma visita, é tão bom, sejas visitante ou visitado,
já temos talheres e pratos suficientes para mais que dois
pronto, vou tomar um banho de banheira
21 março 2014
vejam vejam
uma foto do meu pequeno almoço naquela cadeia de cafés americanos cujo nome não vou aqui dizer porque não merecem publicidade extra, capitalistas de merda,
mas vejam a foto, que significa que gastei oito euros por um croissant seco e um café maior do que eu preciso, não sou chique? ou então vejam a foto de mim, tirada por mim, a mim, egocentrismo? não, estou só a partilhar o novo corte, as novas unhas, a lágrima no canto do olho, ai, agora estou aborrecida, a aula de português é tão seca, bla bla BLA, who the fuck honestly cares,
isto podia ser um post sobre ao que chegámos aos dias de hoje, sobre redes sociais, sobre o futuro da nossa geração, mas não, sou só eu com raiva e ah,
candidatei-me hoje a mestrado.
mas vejam a foto, que significa que gastei oito euros por um croissant seco e um café maior do que eu preciso, não sou chique? ou então vejam a foto de mim, tirada por mim, a mim, egocentrismo? não, estou só a partilhar o novo corte, as novas unhas, a lágrima no canto do olho, ai, agora estou aborrecida, a aula de português é tão seca, bla bla BLA, who the fuck honestly cares,
isto podia ser um post sobre ao que chegámos aos dias de hoje, sobre redes sociais, sobre o futuro da nossa geração, mas não, sou só eu com raiva e ah,
candidatei-me hoje a mestrado.
03 março 2014
por vezes tenho medo
que fiques para sempre presa no limbo entre os teus dois mundos.
acho que não conversamos o suficiente, pelo menos o suficiente para eu ter a certeza a qual é que pertences agora, ouço sempre pacientemente os últimos dramas e fofocas mas sem nunca conseguir encaixá-los numa visão geral, sempre são acontecimentos desligados, interrompidos por várias semanas de me perguntar Como será que vai esta história, e depois, como não tenho resposta, e também tenho muito que fazer deste lado, esqueço-me, e quando me lembro outra vez, sinto-me mal por nunca mais te ter dito nada e ligo-te. há sempre qualquer coisa que se põe entre nós e acabamos por não falar até surgir uma situação socialmente propícia novamente.
não me leves a peito, porque eu não falo do peito, quer dizer, falo, contigo é sempre, mas sinto-me estranhamente analítica em relação a este assunto, como se me visse de fora a falar sobre ele, um tanto quanto de metafísica,
mas por vezes a matemática fica de lado e tenho medo que fiques para sempre presa no limbo entre os teus dois mundos. bem sei que há tanto que lá ficou, mas também, querida, lá há de ficar. e tu escolheste o deixar o lá e vir para cá. porque és uma mulher que pensa no futuro. que tem objectivos. e, sinceramente, por mais que o (A?)amor nos turve os olhos, nunca te imaginei tanto tempo iludida. novamente, não me leves a mal, nada para mim é ilusão em amar alguém, por mais destrutivo que isso seja. é real. ilusão é, sim, saber que te sujeitas a tratos que não são dignos de ninguém e a mim isso dá-me vontade de bater em alguém. mas não. muitas vezes pensei em ter uma conversa com essa pessoa que te arruina, meu deus, o dramatismo!, mas penso, Não é nada comigo, eu tenho é que saber ouvir, é o melhor que faço. é?
talvez isto tudo não faça nenhum sentido porque entretanto já aconteceu outra reviravolta na telenovela dos dois mundos; se assim for, ignora isto tudo. ou não, porque por aqui sei que me ouves. sei que sabes o que eu sinto.
um dia disse que te amava. nunca tinha dito isso a nenhum amigo e decidi dizer-te no momento mais frágil da nossa relação. minha querida, estamos longe desse ponto agora, obviamente. mas há um vazio aqui dentro pequenino que tende a crescer sempre que não atendes as minhas chamadas, sempre que não dizes porquê, sempre que te esqueces da hora marcada, sempre que dizes Agora não dá jeito. mas como te amo, neste sentido perigosamente forte da palavra, há algo que empurra esse vazio contra as paredes da razão e o torna pequenino, quase invisível.
não te percas entre os dois mundos. fica no que escolheste para ti, desde o início. se não tiveres a certeza, não te preocupes, pequenina. eu acredito em ti.
acho que não conversamos o suficiente, pelo menos o suficiente para eu ter a certeza a qual é que pertences agora, ouço sempre pacientemente os últimos dramas e fofocas mas sem nunca conseguir encaixá-los numa visão geral, sempre são acontecimentos desligados, interrompidos por várias semanas de me perguntar Como será que vai esta história, e depois, como não tenho resposta, e também tenho muito que fazer deste lado, esqueço-me, e quando me lembro outra vez, sinto-me mal por nunca mais te ter dito nada e ligo-te. há sempre qualquer coisa que se põe entre nós e acabamos por não falar até surgir uma situação socialmente propícia novamente.
não me leves a peito, porque eu não falo do peito, quer dizer, falo, contigo é sempre, mas sinto-me estranhamente analítica em relação a este assunto, como se me visse de fora a falar sobre ele, um tanto quanto de metafísica,
mas por vezes a matemática fica de lado e tenho medo que fiques para sempre presa no limbo entre os teus dois mundos. bem sei que há tanto que lá ficou, mas também, querida, lá há de ficar. e tu escolheste o deixar o lá e vir para cá. porque és uma mulher que pensa no futuro. que tem objectivos. e, sinceramente, por mais que o (A?)amor nos turve os olhos, nunca te imaginei tanto tempo iludida. novamente, não me leves a mal, nada para mim é ilusão em amar alguém, por mais destrutivo que isso seja. é real. ilusão é, sim, saber que te sujeitas a tratos que não são dignos de ninguém e a mim isso dá-me vontade de bater em alguém. mas não. muitas vezes pensei em ter uma conversa com essa pessoa que te arruina, meu deus, o dramatismo!, mas penso, Não é nada comigo, eu tenho é que saber ouvir, é o melhor que faço. é?
talvez isto tudo não faça nenhum sentido porque entretanto já aconteceu outra reviravolta na telenovela dos dois mundos; se assim for, ignora isto tudo. ou não, porque por aqui sei que me ouves. sei que sabes o que eu sinto.
um dia disse que te amava. nunca tinha dito isso a nenhum amigo e decidi dizer-te no momento mais frágil da nossa relação. minha querida, estamos longe desse ponto agora, obviamente. mas há um vazio aqui dentro pequenino que tende a crescer sempre que não atendes as minhas chamadas, sempre que não dizes porquê, sempre que te esqueces da hora marcada, sempre que dizes Agora não dá jeito. mas como te amo, neste sentido perigosamente forte da palavra, há algo que empurra esse vazio contra as paredes da razão e o torna pequenino, quase invisível.
não te percas entre os dois mundos. fica no que escolheste para ti, desde o início. se não tiveres a certeza, não te preocupes, pequenina. eu acredito em ti.
15 janeiro 2014
quem me dera ser o lobo antunes, primeiro, gosto de lobos, animal bonito, poderoso e ao mesmo tempo com a semelhança canina ao melhor amigo do homem, o que lhe confere a ilusão de ser domesticável, segundo, porque quando o homem escreve, fico eu com vontade e sem capacidade de escrever, imagino quantas pessoas não hão de lhe ter mandado seus escritos, na esperança de sobressaírem, também tenho esse sonho, mas nem sei bem como chegar a ele, por isso escrevo, para mim na maior parte das vezes, mas dele roubo a simplicidade das descrições do quotidiano mundano, a falta de pausa na escrita, eu adoro, cada vez que lhe leio um romance, é cada página três ou quatro vezes, e ainda tenho o último com o marcador na página trinta, à espera de espaço mental para que o possa terminar,
gosto também do saramago, mas esse já foi, o sarcasmo dele também me inspira a dissecar as minhas próprias ideias,
e isto já parece uma crítica literária, ou então nada a ver com isso, eu sei, vem-me o termo à cabeça e eu sei que não está correcto, mas tenho preguiça de corrigir, pensar num melhor, já te disse, escrevo para mim na maior parte das vezes,
Já não é meia noite quem quer, está lá na minha mesa de cabeceira, comprei-o no verão passado, como é bom gastar dinheiro em algo que se quer, e desde então está lá, na minha mesa de cabeceira, a dois mil quilómetros de onde estou agora, nas férias considerei trazê-lo, é grande e pesa, e sinceramente não me achei capaz de o tentar ler novamente, talvez no verão, quando estiver dourada por fora e límpida por dentro, consiga ler, ata titi tio atou
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