de costas - para mim são as piores e são as que sinto agora, dois tipos, uma a começar nos rins, é como uma bolha morna de dor, constante, em segundo plano, mas a corroer aos poucos, a outra é na base da nuca, intensa, parece que sou feita de pedra e não há massagem amadora que alivie isto, são muitas horas em frente a um computador ou a um piano, de repente são cinco da tarde e eu ainda não saí de casa,
dedo no backspace, apagar uma data de coisas que não te interessam e nem a mim,
comprei o novo romance do lobo antunes ontem por isso não te admires se não vier cá escrever durante meses, aquele homem deixa-me incapacitada
13 outubro 2012
04 outubro 2012
a letra que vem a seguir ao A saltou do teclado
há pessoas decentes no mundo, ou então, são completamente sem noção, a verdade é que hoje quando me pus à entrada para a rotunda, de cartaz indicativo na mão e polegar estendido no típico gesto, passou-me de tudo à frente, desde homens peludos e malcheirosos em carripanas a cair de podre e cheias de pó que às oito da manhã de certo já tinham tomado uma cervejinha pr'aquecer, a homens engravatados, sozinhos num carro de mil dinheiros, a ignorarem agudamente o meu pedido, a casais de cara fechada a esperar que o amuo da manhã passasse com o tempo, a pais num monovolume com os três lugares atrás ocupados por putos remelentos - a eterna dúvida: remela ou ramela?, a tias em jipes cromados com óculos de sol maior que a cara,
foi uma dessas que parou, olhou para mim intrigada e divertida ao mesmo tempo, disse-me Não costumo fazer isto, mas venha daí, e levou-me até à faculdade, e ela nem ia para aquela zona, fez o desvio porque há pessoas decentes no mundo
foi uma dessas que parou, olhou para mim intrigada e divertida ao mesmo tempo, disse-me Não costumo fazer isto, mas venha daí, e levou-me até à faculdade, e ela nem ia para aquela zona, fez o desvio porque há pessoas decentes no mundo
29 setembro 2012
confissão imberbe
discutimos, eu e eles.
eu digo que não,
eles que sim,
eu que não é bem assim
eles: 'cala-te senão...!'
senão o quê?
cortam-me a mesada?
deixam-me trancada?
não me deixam fazer nada?
cortam-me com uma espada
assim aos bocadinhos
enterram-me no solo
para nascerem menininhos
mais bem comportados que a filha crescida
que aprendeu a pensar e que sabe que a vida
não é sempre como queremos
nem eu, nem eles.
discutimos, eu e eles.
só porque querem que eu seja
a menina que sempre conheceram
a menina que raspa o joelho e se aleija
e precisa do conforto que então me deram.
eles bem dizem que é da idade,
da maturidade (ou imaturidade?)
própria desta fase
só sei que frases
entram e saem
sem que se registem ideias concretas.
se não querem ouvir mentiras,
porque é que a verdade é tão directa?
discutimos, eu e eles.
gritamos uns com os outros
e nesta chatice de ter pais
penso que ainda há mais
a dizer do que isso.
é com eles que durmo
que como
que vivo
e, no fundo, amo-os
e eles a mim.
enfim,
por pretextos tão reles
discutimos, eu e eles.
[200?]
eu digo que não,
eles que sim,
eu que não é bem assim
eles: 'cala-te senão...!'
senão o quê?
cortam-me a mesada?
deixam-me trancada?
não me deixam fazer nada?
cortam-me com uma espada
assim aos bocadinhos
enterram-me no solo
para nascerem menininhos
mais bem comportados que a filha crescida
que aprendeu a pensar e que sabe que a vida
não é sempre como queremos
nem eu, nem eles.
discutimos, eu e eles.
só porque querem que eu seja
a menina que sempre conheceram
a menina que raspa o joelho e se aleija
e precisa do conforto que então me deram.
eles bem dizem que é da idade,
da maturidade (ou imaturidade?)
própria desta fase
só sei que frases
entram e saem
sem que se registem ideias concretas.
se não querem ouvir mentiras,
porque é que a verdade é tão directa?
discutimos, eu e eles.
gritamos uns com os outros
e nesta chatice de ter pais
penso que ainda há mais
a dizer do que isso.
é com eles que durmo
que como
que vivo
e, no fundo, amo-os
e eles a mim.
enfim,
por pretextos tão reles
discutimos, eu e eles.
[200?]
27 setembro 2012
ora bem
confusa.
com fusa.
com outro fuso horário, relógio biológico, o dia hoje pareceu um sonho, tudo morto, cores mortas, o céu cinzento, o chão cinzento, as caras das pessoas cinzentas, cor de cimento, só o mar estava verde-cinzento misterioso, as três horas no hospital - está tudo bem - passaram como três minutos, ou como se três horas perdidas não fossem nada, eu empoleirada no candeeiro da sala de espera a ver-me sentada numa das cadeiras articuladas, de olhar mortiço e de calma resignada de quem não tem mesmo mais nada para fazer, hoje não havia metro por isso apanhei o eléctrico até à praça da figueira, não paguei bilhete, saí do veículo para o mar de caras cinzentas a fumar cigarros e a beber cafés às nove da manhã, a gola do casaco repuxada, parece que o outono está a chegar, se bem que ainda me finta de vez em quando, ridicularizando as minhas escolhas indumentárias como a malha que a minha avó me fez que levei hoje vestida, andar pela avenida também pareceu-me irreal, pessoas a roçaram no meu braço e eu a não fugir do contacto físico indesejado, a indiferença extrema que se apoderou de mim, agora que penso nisso, é um pouco assustadora,
tudo sem cor, tudo externo a mim,
e pensar que ontem estava viva e nem sabia como
com fusa.
com outro fuso horário, relógio biológico, o dia hoje pareceu um sonho, tudo morto, cores mortas, o céu cinzento, o chão cinzento, as caras das pessoas cinzentas, cor de cimento, só o mar estava verde-cinzento misterioso, as três horas no hospital - está tudo bem - passaram como três minutos, ou como se três horas perdidas não fossem nada, eu empoleirada no candeeiro da sala de espera a ver-me sentada numa das cadeiras articuladas, de olhar mortiço e de calma resignada de quem não tem mesmo mais nada para fazer, hoje não havia metro por isso apanhei o eléctrico até à praça da figueira, não paguei bilhete, saí do veículo para o mar de caras cinzentas a fumar cigarros e a beber cafés às nove da manhã, a gola do casaco repuxada, parece que o outono está a chegar, se bem que ainda me finta de vez em quando, ridicularizando as minhas escolhas indumentárias como a malha que a minha avó me fez que levei hoje vestida, andar pela avenida também pareceu-me irreal, pessoas a roçaram no meu braço e eu a não fugir do contacto físico indesejado, a indiferença extrema que se apoderou de mim, agora que penso nisso, é um pouco assustadora,
tudo sem cor, tudo externo a mim,
e pensar que ontem estava viva e nem sabia como
23 setembro 2012
em alfama há um bar onde não se batem palmas
(não podia ter escolhido um título mais propício a dar problemas de concordância)
sobes por aquela rua de alfama, aquela estreita, das escadinhas, quando menos esperas viras à direita, ou à esquerda, depende de onde vens, e entras numa garagem, pequena, dá para um balcão e meia dúzia de mesas, quem ali vai conhece, ou então vai com alguém que conhece, como eu fui,
sentas-te e pedes qualquer coisa para beber, ao fim da noite, início da manhã portanto, há que comer também, naquela noite foi frango com amêndoas, comida caseira, servida ao quilo num prato a transbordar, há duas guitarras encostadas a um canto, além do piano em modo estante de livros temporária, a mim demorou umas duas horas a perceber que ali havia efectivamente um piano, quando te apetecer pegas numa guitarra e cantas, as pessoas calam-se e ouvem-te,
depois de quebrares o gelo, toda a gente canta, quem conhece o que estás a tocar e quem não conhece também, quem não canta pega noutra guitarra, no banco vago ao lado, nas próprias mãos e pernas e acompanha, as pessoas dançam, a guitarra gira por todos e as horas vão-se compondo de música e das pessoas que a fazem, não se bate palmas porque faz barulho, esfregas a mão assim uma na outra, volta e meia o dono, zarolho e careca, manda um shhhh, quando a malta se entusiasma, ninguém quer saber se sabes cantar ou não, ninguém quer saber de nada senão do momento que existe dentro desta garagem em alfama, onde se faz música sem pensar em como se deve fazer, faz-se simplesmente, genuinamente, de peito aberto, um bar onde não se batem palmas e onde seis horas passam a correr sem dares por elas
sobes por aquela rua de alfama, aquela estreita, das escadinhas, quando menos esperas viras à direita, ou à esquerda, depende de onde vens, e entras numa garagem, pequena, dá para um balcão e meia dúzia de mesas, quem ali vai conhece, ou então vai com alguém que conhece, como eu fui,
sentas-te e pedes qualquer coisa para beber, ao fim da noite, início da manhã portanto, há que comer também, naquela noite foi frango com amêndoas, comida caseira, servida ao quilo num prato a transbordar, há duas guitarras encostadas a um canto, além do piano em modo estante de livros temporária, a mim demorou umas duas horas a perceber que ali havia efectivamente um piano, quando te apetecer pegas numa guitarra e cantas, as pessoas calam-se e ouvem-te,
depois de quebrares o gelo, toda a gente canta, quem conhece o que estás a tocar e quem não conhece também, quem não canta pega noutra guitarra, no banco vago ao lado, nas próprias mãos e pernas e acompanha, as pessoas dançam, a guitarra gira por todos e as horas vão-se compondo de música e das pessoas que a fazem, não se bate palmas porque faz barulho, esfregas a mão assim uma na outra, volta e meia o dono, zarolho e careca, manda um shhhh, quando a malta se entusiasma, ninguém quer saber se sabes cantar ou não, ninguém quer saber de nada senão do momento que existe dentro desta garagem em alfama, onde se faz música sem pensar em como se deve fazer, faz-se simplesmente, genuinamente, de peito aberto, um bar onde não se batem palmas e onde seis horas passam a correr sem dares por elas
15 setembro 2012
boleia para casa
Uma relação é um complemento, nunca pode ser uma necessidade ou um objectivo, disse-me ele, enquanto me deixava à porta de casa,
enquanto me deixava é como quem diz, porque na verdade ficámos nesse momento uma boa meia hora, e no meio desses minutos lançou-me a frase acima com uma clarividência mais que óbvia, e eu admirei-me de nunca ter pensado nisso e admirei-o por ter posto as coisas nesses termos tão simples que até fiquei uns minutos calada, a absorver aquela pequena grande frase, se calhar para ti não faz sentido nenhum, mas a mim iluminou-me naquele momento, era quase uma da manhã, à porta de minha casa, vinha tão cansada,
disseram-me, em tom misto de surpresa e admiração, que emano uma onda de tranquilidade, que estou diferente, as férias fizeram-me bem, foi?, bom, ainda bem,
é verdade, ando bem. comigo.
enquanto me deixava é como quem diz, porque na verdade ficámos nesse momento uma boa meia hora, e no meio desses minutos lançou-me a frase acima com uma clarividência mais que óbvia, e eu admirei-me de nunca ter pensado nisso e admirei-o por ter posto as coisas nesses termos tão simples que até fiquei uns minutos calada, a absorver aquela pequena grande frase, se calhar para ti não faz sentido nenhum, mas a mim iluminou-me naquele momento, era quase uma da manhã, à porta de minha casa, vinha tão cansada,
disseram-me, em tom misto de surpresa e admiração, que emano uma onda de tranquilidade, que estou diferente, as férias fizeram-me bem, foi?, bom, ainda bem,
é verdade, ando bem. comigo.
10 setembro 2012
meia noite e meia
no caminho para casa, a seguir à rotunda grande, há uma paragem de autocarro que à noite parece estranha, por ser tão iluminada no meio do escuro. todos os dias, entre a meia noite e a meia noite e meia, está lá o louco. o louco é alto, barbudo, cabeludo, e encontra conforto para a sua vida de rua naquela paragem, àquela determinada hora da noite. já conheço o louco há que tempos, tenho medo dele, embora no fundo saiba que é inofensivo. vejo-o muitas vezes a subir a minha rua, com o jornal debaixo do braço. eu atravesso sempre para o outro lado. uma vez, há uns seis ou sete anos, estava a curtir com o meu namorado da altura numa ruela escondida, e sai o louco dum prédio em ruínas e estende a mão ao rapaz e diz Olá, eu sou o carlos,
deves pensar que eu estou com uma fixação qualquer com o nome carlos, mas a minha vida anda cheia deles e não estou a inventar,
quando volto dos ensaios à noite, lá está ele, de sobretudo e uma litrosa num saco de plástico, à espera do comboio na paragem do autocarro
deves pensar que eu estou com uma fixação qualquer com o nome carlos, mas a minha vida anda cheia deles e não estou a inventar,
quando volto dos ensaios à noite, lá está ele, de sobretudo e uma litrosa num saco de plástico, à espera do comboio na paragem do autocarro
09 setembro 2012
sonho
hoje é dia de resultados de candidaturas e eu acordei com restos de um sonho a acelerar-me o coração,
estava atrasada para o primeiro dia de aulas porque o instituto superior técnico é enorme e eu nem sequer sabia a minha turma, depois lá reparei nuns papéis afixados e vi que era da turma 23 e que tinha aulas agora de manhã na sala número 3, que não só era noutro piso, como noutro bloco completamente diferente daquele em que estava, fui a passo apressado e entrei na sala, pedi desculpas ao professor, ele continuou, impávido e sereno, só a meio da aula reparei que afinal era uma professora, a turma era quase só rapazes, olharam-me com interesse, que eu agudamente ignorei, prestei atenção ao quadro que já estava rabiscado com equações, o professor, a professora, perdão, a falar de termos matemáticos do secundário, o pânico a subir-me goela acima, merda, já não me lembro de nada,
afinal estamos num anfiteatro, e lembro-me de ter recebido um e-mail enviado a todos os caloiros duma veterana que ia estar vestida com uma t-shirt amarelo fluorescente no anfiteatro e quem a visse, ou tocasse, talvez, primeiro tinha direito a uma viagem não sei onde e isenção da praxe mais pesada, e eu cheia de medo, da praxe, da veterana, vi-a logo, estava num camarote, sim, o anfiteatro tinha camarotes, oposto ao meu, no meio disto tudo pensei, porque raio é que terminei uma licenciatura em música e vim parar a engenharia no técnico?
o despertador tocou a meio do meu sonho, mas eu ignorei-o para sonhar mais um bocadinho,
quando acordei definitivamente, lá respirei fundo, afinal já vou para o quarto ano de faculdade e a matemática há muito que ficou irremediavelmente para trás.
estava atrasada para o primeiro dia de aulas porque o instituto superior técnico é enorme e eu nem sequer sabia a minha turma, depois lá reparei nuns papéis afixados e vi que era da turma 23 e que tinha aulas agora de manhã na sala número 3, que não só era noutro piso, como noutro bloco completamente diferente daquele em que estava, fui a passo apressado e entrei na sala, pedi desculpas ao professor, ele continuou, impávido e sereno, só a meio da aula reparei que afinal era uma professora, a turma era quase só rapazes, olharam-me com interesse, que eu agudamente ignorei, prestei atenção ao quadro que já estava rabiscado com equações, o professor, a professora, perdão, a falar de termos matemáticos do secundário, o pânico a subir-me goela acima, merda, já não me lembro de nada,
afinal estamos num anfiteatro, e lembro-me de ter recebido um e-mail enviado a todos os caloiros duma veterana que ia estar vestida com uma t-shirt amarelo fluorescente no anfiteatro e quem a visse, ou tocasse, talvez, primeiro tinha direito a uma viagem não sei onde e isenção da praxe mais pesada, e eu cheia de medo, da praxe, da veterana, vi-a logo, estava num camarote, sim, o anfiteatro tinha camarotes, oposto ao meu, no meio disto tudo pensei, porque raio é que terminei uma licenciatura em música e vim parar a engenharia no técnico?
o despertador tocou a meio do meu sonho, mas eu ignorei-o para sonhar mais um bocadinho,
quando acordei definitivamente, lá respirei fundo, afinal já vou para o quarto ano de faculdade e a matemática há muito que ficou irremediavelmente para trás.
06 setembro 2012
parar
esta parte não tem poesia nenhuma, aviso-te já desde o início, se estás à espera dum final feliz ou de um caminho para um final feliz não é aqui, encerrou, fechado para obras, embargado, o que quiseres,
a verdade é que depois o carlos afinal já quis o meu número e já quis saber a que horas vinha correr e inclusive, esta é que me custou mais, já quis saber o quanto é que eu corria, para depois, uns dias a seguir, dizer-me Não te vi passar ainda, fizeste o teu percurso todo?, como se fosse meu personal trainer ou como se tivesse algum direito de regular as corridas que eu dou, mas afastei essa irritação para o cantinho esquerdo da minha cabeça, não queria ser desagradável, afinal, estava, ainda, disponível,
cometi o erro de lhe dizer que tinha escrito isto, portanto é provável que me venha pedir satisfações ou que deixe outro comentário anónimo a este post como o último que está no outro, ainda por cima, deixou esse comentário depois de largar a bomba do esperoquenãoteimportesmaseusoucasado, esse tipo de bomba largada assim com tom despreocupado a fingir, na verdade a sondar a reacção, que foi nula, fiquei parva, boca aberta a olhar para o nada, (estas coisas acontecem mesmo?),
claro está que o interesse que até aí existiu rapidamente voltou à estaca zero, com o acréscimo de incredulidade e alguma repulsa, para ser sincera, é um homem bonito, de certeza que tem uma mulher bonita, porquê?, porquê?,
curiosamente, nunca mais o vi, não sei se por intencional desencontro ou por feliz coincidência,
fim
29 agosto 2012
correr
estava a descer a rua, num passo de quem está relativamente tranquilo com a vida e com a noção de passar a próxima hora a suar energias, ia bem equipada, calções, ténis de jeito, soutien de desporto e uma t-shirt larga, finalmente consegui prender o cabelo, é certo que não sem a ajuda de um gancho que roubei à minha irmã, mas está preso, fora dos meus olhos e da minha futura testa suada,
não ia a pensar em nada, ia em passo enérgico e elástico e passou um homem de corpo bonito, em calções curtos e tronco nu, grande sem ser demasiado, louro, olhos azuis, tinha ar de turista finlandês ou sueco a passar férias num hotel no estoril que deixou a loura boazona a dormir mais um bocado numa cama dois por dois e veio dar a sua corrida matinal, corria bem, e, ao contrário de mim que andava até ao sítio onde ia começar a minha corrida, vinha já correndo,
passou por mim e olhou-me, duma maneira no limiar entre o vulgar e o charmoso, e fez um gesto de aprovação, não sei se das minhas pernas recém-depiladas, da maneira descontraída como encarava a caminhada daquela manhã ou do facto de ir efectivamente correr, eu sorri-lhe de volta - voltou-me esta mania de sorrir às pessoas (e ainda há quem ache estranho!) - e segui caminho, com o ego massajado logo de manhã, independentemente, detesto esta palavra, tenho sempre que verificar se a escrevi bem, do objecto de aprovação do senhor,
chego ao sítio e corro, corro devagar, sinto aos poucos as pernas a aquecerem e o suor começa a surgir-me nas dobras das pernas e dos braços, corro com os braços junto ao corpo, não há nada mais ridículo do que correr com os braços a voar para todo o lado, vou sem música, encontro a motivação para o próximo passo dentro de mim, ou no mar ao meu lado, ou nas pessoas que vou ultrapassando, ou na mancha crescente de suor que me nasce no fundo das costas, deslizando, ah, se tu visses,
estou quase no fim, perdi um pouco da minha pose atlética, estou cansada, vermelha e o gancho da minha irmã pouco faz por mim, e vejo-o a vir na direcção oposta, no seu passo irritantemente controlado, não obstante já terem passado cerca de 45 minutos desde que nos cruzámos, às vezes olho para o chão quando corro ou olho para a frente sem ver, e por esta razão só o vi quando estava a escassos metros de mim - e os metros são ainda mais escassos quando se corre - e apenas tive tempo de esboçar um sorriso descoordenado para responder ao dele, encantado com o reconhecimento mútuo que naquele instante se deu.
no dia seguinte, tive o cuidado de sair de casa à mesma hora, na esperança que nos cruzássemos outra vez no caminho para a corrida, mas não aconteceu, de certo voltou para a finlândia com a sua boazona de metro e oitenta, e a esperança de o ver novamente espaireceu assim como veio, sem aviso, sem consistência e sem eu realmente acreditar nela,
quase uma semana depois, retomada a minha despreocupada relação com a corrida da manhã, termino a corrida, menos suada e menos cansada que na semana anterior, estou a andar a recuperar o fôlego, e lá vem ele, mais uma vez na direcção contrária, trocou de calções mas são igualmente curtos, e o tronco nu já vem com uma camada fina de suor, olhamo-nos com alguma surpresa, constatando nos olhos um do outro que na verdade não tínhamos perdido a expectativa, e ele abranda, pára, sorri, diz-me num português perfeito que afastou as minhas teorias nórdicas,
Estava à espera de te encontrar outra vez!
eu bufo um desajeitado e demasiado entusiástico Eu também e estendo-lhe a mão,
Eu sou a Marta,
Carlos,
segue-se uma conversa sucinta, vens correr todos os dias, sim, tento, não quis saber a que horas vinha nem a minha idade nem o meu número de telefone, finda a conversa, recuei um passo, dando-lhe abertura para continuar a sua corrida, e, escusado será dizer, fui para casa com o ego no topo.
não ia a pensar em nada, ia em passo enérgico e elástico e passou um homem de corpo bonito, em calções curtos e tronco nu, grande sem ser demasiado, louro, olhos azuis, tinha ar de turista finlandês ou sueco a passar férias num hotel no estoril que deixou a loura boazona a dormir mais um bocado numa cama dois por dois e veio dar a sua corrida matinal, corria bem, e, ao contrário de mim que andava até ao sítio onde ia começar a minha corrida, vinha já correndo,
passou por mim e olhou-me, duma maneira no limiar entre o vulgar e o charmoso, e fez um gesto de aprovação, não sei se das minhas pernas recém-depiladas, da maneira descontraída como encarava a caminhada daquela manhã ou do facto de ir efectivamente correr, eu sorri-lhe de volta - voltou-me esta mania de sorrir às pessoas (e ainda há quem ache estranho!) - e segui caminho, com o ego massajado logo de manhã, independentemente, detesto esta palavra, tenho sempre que verificar se a escrevi bem, do objecto de aprovação do senhor,
chego ao sítio e corro, corro devagar, sinto aos poucos as pernas a aquecerem e o suor começa a surgir-me nas dobras das pernas e dos braços, corro com os braços junto ao corpo, não há nada mais ridículo do que correr com os braços a voar para todo o lado, vou sem música, encontro a motivação para o próximo passo dentro de mim, ou no mar ao meu lado, ou nas pessoas que vou ultrapassando, ou na mancha crescente de suor que me nasce no fundo das costas, deslizando, ah, se tu visses,
estou quase no fim, perdi um pouco da minha pose atlética, estou cansada, vermelha e o gancho da minha irmã pouco faz por mim, e vejo-o a vir na direcção oposta, no seu passo irritantemente controlado, não obstante já terem passado cerca de 45 minutos desde que nos cruzámos, às vezes olho para o chão quando corro ou olho para a frente sem ver, e por esta razão só o vi quando estava a escassos metros de mim - e os metros são ainda mais escassos quando se corre - e apenas tive tempo de esboçar um sorriso descoordenado para responder ao dele, encantado com o reconhecimento mútuo que naquele instante se deu.
no dia seguinte, tive o cuidado de sair de casa à mesma hora, na esperança que nos cruzássemos outra vez no caminho para a corrida, mas não aconteceu, de certo voltou para a finlândia com a sua boazona de metro e oitenta, e a esperança de o ver novamente espaireceu assim como veio, sem aviso, sem consistência e sem eu realmente acreditar nela,
quase uma semana depois, retomada a minha despreocupada relação com a corrida da manhã, termino a corrida, menos suada e menos cansada que na semana anterior, estou a andar a recuperar o fôlego, e lá vem ele, mais uma vez na direcção contrária, trocou de calções mas são igualmente curtos, e o tronco nu já vem com uma camada fina de suor, olhamo-nos com alguma surpresa, constatando nos olhos um do outro que na verdade não tínhamos perdido a expectativa, e ele abranda, pára, sorri, diz-me num português perfeito que afastou as minhas teorias nórdicas,
Estava à espera de te encontrar outra vez!
eu bufo um desajeitado e demasiado entusiástico Eu também e estendo-lhe a mão,
Eu sou a Marta,
Carlos,
segue-se uma conversa sucinta, vens correr todos os dias, sim, tento, não quis saber a que horas vinha nem a minha idade nem o meu número de telefone, finda a conversa, recuei um passo, dando-lhe abertura para continuar a sua corrida, e, escusado será dizer, fui para casa com o ego no topo.
26 agosto 2012
segundo
tinham-se conhecido numa festa do politécnico, onde ele fora parar meio por engano, meio por inércia de dizer que não, quando um amigo de longa data lhe vendeu a ideia que nas festas universitárias é que se está bem, porque Elas querem é homens mais velhos, pá, ainda por cima nestas festas bebem que nem umas doidas e torna tudo mais fácil. ficou a pensar no que quereria dizer tornar tudo mais fácil, mas não quis pensar demasiado, dava trabalho, talvez até tivesse que se sentar direito no sofá onde estava enterrado, na saleta, com a televisão a murmurar qualquer coisa sobre a rota das cegonhas ou a novela das nove.
chegou ao parque das nações e foi um inferno estacionar, o carlos insuportável a apontar miúdas que nem dezoito anos deviam ter e a dar-lhe toques de cotovelo como quem diz, e esta, hmm?, ele agarrado a uma imperial tagus, a pensar Que merda de festa, que merda de cerveja. em todo lado havia pinguins, trajados aos berros uns com os outros, como se a única maneira de comunicarem entre si fosse efectivamente os sons guturais que trocavam, por cima de cervejas e raparigas penduradas nos ombros dos rapazes, isto as que já não estavam enroladas com eles dentro duma capa, tudo no espírito puramente académico, claro. às tantas, o carlos desaparece, e ele senta-se num banco ainda não tomado por nada, observador dos fenómenos sociais daquela noite a caminhar para a manhã.
ela chegou como um gesto natural; não há melhor maneira de explicá-lo, era como se ele já soubesse que mais tarde ou mais cedo ela ia sentar-se ao seu lado naquele banco de jardim, oferecer-lhe superbock de uma litrosa escondida debaixo da capa, sorrindo cúmplice, a transbordar do traje que vestia, como se fosse uma estrela vestida, perdoa, leitor, o exagero peganhento da descrição, de cabelo muito curto, numa existência em todas as direcções e os olhos verdes a analisarem-no sem dó,
Olá,
Olá,
Eu sou a Isa,
Eu sou o João,
e como poderia ele adivinhar que essa introdução foi prólogo de uma conversa até ao amanhecer, que o carlos viria chateá-lo a dizer que se queria ir embora, que isto era só miúdas histéricas afinal, e ele a ignorá-lo subtilmente, mergulhado na melodia da voz da isa, no riso da isa, no nariz pequenino da isa, na escondida inteligência da isa e que no final, ou no início, ofereceu-se para levá-la a casa, sem saber onde seria isso, e ela diria que não a querer dizer que sim, dava-lhe um beijo na face e desaparecia, sem deixar papel nem número, apenas o beijo e o que a memória dele conseguisse guardar.
chegou ao parque das nações e foi um inferno estacionar, o carlos insuportável a apontar miúdas que nem dezoito anos deviam ter e a dar-lhe toques de cotovelo como quem diz, e esta, hmm?, ele agarrado a uma imperial tagus, a pensar Que merda de festa, que merda de cerveja. em todo lado havia pinguins, trajados aos berros uns com os outros, como se a única maneira de comunicarem entre si fosse efectivamente os sons guturais que trocavam, por cima de cervejas e raparigas penduradas nos ombros dos rapazes, isto as que já não estavam enroladas com eles dentro duma capa, tudo no espírito puramente académico, claro. às tantas, o carlos desaparece, e ele senta-se num banco ainda não tomado por nada, observador dos fenómenos sociais daquela noite a caminhar para a manhã.
ela chegou como um gesto natural; não há melhor maneira de explicá-lo, era como se ele já soubesse que mais tarde ou mais cedo ela ia sentar-se ao seu lado naquele banco de jardim, oferecer-lhe superbock de uma litrosa escondida debaixo da capa, sorrindo cúmplice, a transbordar do traje que vestia, como se fosse uma estrela vestida, perdoa, leitor, o exagero peganhento da descrição, de cabelo muito curto, numa existência em todas as direcções e os olhos verdes a analisarem-no sem dó,
Olá,
Olá,
Eu sou a Isa,
Eu sou o João,
e como poderia ele adivinhar que essa introdução foi prólogo de uma conversa até ao amanhecer, que o carlos viria chateá-lo a dizer que se queria ir embora, que isto era só miúdas histéricas afinal, e ele a ignorá-lo subtilmente, mergulhado na melodia da voz da isa, no riso da isa, no nariz pequenino da isa, na escondida inteligência da isa e que no final, ou no início, ofereceu-se para levá-la a casa, sem saber onde seria isso, e ela diria que não a querer dizer que sim, dava-lhe um beijo na face e desaparecia, sem deixar papel nem número, apenas o beijo e o que a memória dele conseguisse guardar.
20 agosto 2012
primeiro
não quis levá-la a um sítio de sempre. não tinham intimidade, ainda, mas sentia que esse caminho pelos sítios de sempre travava um pouco a progressão normal até à intimidade. ligou-lhe de manhã e perguntou-lhe se queria ir almoçar; ela respondeu um claro luminoso, mesmo ao telefone dava para perceber, quase que sentiu a boca de amêndoa dela a formar a palavra que é uma descrição de si própria. suspirou.
tomou banho demorado, mas não se preocupou coma roupa que ia vestir; sabia que ela gostava de homens que cheiram a banho e que não ligava ao que vestiam. disse-lhe isto uma vez, em conversa num passeio em belém, a olhá-lo nos olhos e a sugerir mil significados para a frase A roupa não me interessa, mas é claro que isso podia ser só fruto da imaginação dele, ou dos olhos verdes dela que lhe ofuscavam a mente.
pegou nas chaves do carro (esqueceu-se da margarida que lhe ia dar em cima da mesinha do hall de entrada) e desceu aos tropeços a escadaria do prédio, impaciente demais para esperar pelo elevador. a vizinha do rés do chão direito estava à janela, para não variar, mas nem se lembrou de lhe dizer bom dia - e isto era correr riscos, porque a D.Almerinda levava a boa educação muito a sério - na pressa de querer chegar uns minutos antes do combinado, naquela calma de quem finge que acabou mesmo de chegar.
deu duas buzinadelas quando chegou à porta do prédio em benfica, onde ela vivia com os pais e o irmão mais novo. ainda não os conhecera, pensou, enquanto esperava. que estupidez, isso nem sequer faz sentido. aliás, quase não faz sentido estar aqui à espera dela, numa manhã de quarta-feira. abanou a cabeça como quem tira uma ideia para fora.
sentiu três pancadinhas no vidro.
ela vinha radiosa, se tivesse que lhe escolher uma palava seria luz, de vestido simples de verão, verde ou amarelo, não se percebia bem, algures entre o curto e o comprido, seria abaixo ou mesmo acima do joelho?, o cabelinho preto muito curto, arrumado atrás das orelhas e os olhos, os olhos a beijarem a face dele mais que o encostar de lábios à barba mal feita que se sucedeu ao entrar-lhe no carro, a falar demasiado, sobre a guitarra nova do irmão e os planos da mãe para a reforma da cozinha e a barulheira infernal que seria, onde vamos afinal?
vamos a cascais comer um cachorro, disse ele, e o rosto dela iluminou-se (como se isso fosse ainda possível) numa alegria de criança, Mas, continuou, há uma regra,
ela fez que sim com cabeça, Estou a ouvir,
Ganha quem deixar cair menos coisas do cachorro,
achou piada e riu-se, mas certamente não imaginava que tal tarefa não seria nada fácil com os cachorros da rulote da praia do guincho,
enquanto conduzia pela marginal, já imaginava a adorável face com um borrão de mostarda ao canto da boca, e achou que, sem dúvida alguma, isso não quebraria o seu encanto.
tomou banho demorado, mas não se preocupou coma roupa que ia vestir; sabia que ela gostava de homens que cheiram a banho e que não ligava ao que vestiam. disse-lhe isto uma vez, em conversa num passeio em belém, a olhá-lo nos olhos e a sugerir mil significados para a frase A roupa não me interessa, mas é claro que isso podia ser só fruto da imaginação dele, ou dos olhos verdes dela que lhe ofuscavam a mente.
pegou nas chaves do carro (esqueceu-se da margarida que lhe ia dar em cima da mesinha do hall de entrada) e desceu aos tropeços a escadaria do prédio, impaciente demais para esperar pelo elevador. a vizinha do rés do chão direito estava à janela, para não variar, mas nem se lembrou de lhe dizer bom dia - e isto era correr riscos, porque a D.Almerinda levava a boa educação muito a sério - na pressa de querer chegar uns minutos antes do combinado, naquela calma de quem finge que acabou mesmo de chegar.
deu duas buzinadelas quando chegou à porta do prédio em benfica, onde ela vivia com os pais e o irmão mais novo. ainda não os conhecera, pensou, enquanto esperava. que estupidez, isso nem sequer faz sentido. aliás, quase não faz sentido estar aqui à espera dela, numa manhã de quarta-feira. abanou a cabeça como quem tira uma ideia para fora.
sentiu três pancadinhas no vidro.
ela vinha radiosa, se tivesse que lhe escolher uma palava seria luz, de vestido simples de verão, verde ou amarelo, não se percebia bem, algures entre o curto e o comprido, seria abaixo ou mesmo acima do joelho?, o cabelinho preto muito curto, arrumado atrás das orelhas e os olhos, os olhos a beijarem a face dele mais que o encostar de lábios à barba mal feita que se sucedeu ao entrar-lhe no carro, a falar demasiado, sobre a guitarra nova do irmão e os planos da mãe para a reforma da cozinha e a barulheira infernal que seria, onde vamos afinal?
vamos a cascais comer um cachorro, disse ele, e o rosto dela iluminou-se (como se isso fosse ainda possível) numa alegria de criança, Mas, continuou, há uma regra,
ela fez que sim com cabeça, Estou a ouvir,
Ganha quem deixar cair menos coisas do cachorro,
achou piada e riu-se, mas certamente não imaginava que tal tarefa não seria nada fácil com os cachorros da rulote da praia do guincho,
enquanto conduzia pela marginal, já imaginava a adorável face com um borrão de mostarda ao canto da boca, e achou que, sem dúvida alguma, isso não quebraria o seu encanto.
16 agosto 2012
juquehy, 00h21
falta a melodia. tanto trabalho, transpôr para cinco linhas o que me sai tão espontaneamente. parece que perde a magia. não, não o vou fazer. é tarde e já me desmagiquei o suficiente a escrever os versos e a harmonia, mais!, a escrever a harmonia certa, porque perdi tempo a decifrar todas as dissonâncias que me agradam e a dar-lhes nomes como #13 ou b9. devia ser só eu, a guitarra, o barulho do mar - está aqui mesmo ao pé, o mar; o barulho está em todo o lado, e este cão semi adormecido a meus pés. seria demasiado bucólico, idílico e outros adjectivos esdrúxulos acabados em -ico.
demasiado é uma palavra perigosa, podes riscá-la da frase anterior.
demasiado é uma palavra perigosa, podes riscá-la da frase anterior.
12 agosto 2012
a anfitriã da festa era nitidamente louca
vinha abrir a porta aos seus convidados vestida com uma combinação única de ganga, blusa e calças num só pedaço de tecido, que deixava a sua cintura numa zona um pouco duvidosa e que não a ajudava nada em termos de sensualidade, mas que era todavia compensada pela pequena tatuagem na nuca, uma rosa, que se avistava quando mexia ao acaso nos cabelos compridos, cabelos esses, ruivos, que sofriam dum penteado que era sem dúvida fruto de várias horas no cabeleireiro, mas cujo resultado final era equivalente ao acordar num dia mau, o que assustava mesmo era os olhos, carregadíssimos de um verde musgo e com estrelas cintilantes por cima, de maneira a que olhá-la nos olhos tornava-se uma tarefa difícil pois o brilho das pálpebras ofuscava-lhe o brilho dos olhos,
fazia anos, estava feliz e abraçava toda a gente com igual e não tão contagiante efusão, independentemente do grau de confiança que tinha com os que envolvia nos seus braços magros, era magra, quase esquelética, o que, combinado com os olhos enormes e o cabelo comprido e a estranha combi, tornava-a louca,
metade da festa eram amigos ou família do seu companheiro, um ex-solteirão quinze anos mais velho, que vivia fugindo das intenções casamenteiras da louca - embora cá entre nós eu ache que ela esteja grávida -, a outra metade eram amigos dela, novos, imaturos, novos ricos que falam alto e exibem suas mulheres com colares que eles mesmo deram, como se a mulher não passasse de um cabide onde iam pendurando sucessivamente as provas da sua nova riqueza e que à noite também se ajoelhavam à sua frente, desta secção, havia duas irmãs (ou primas), muito parecidas, com idênticos saltos de quatorze centímetros e idênticas saias de cinco, identicamente feias e medíocres, pintadas quase ao ponto de parecerem bonitas, que reclamaram que estava demasiado barulho para conversar porque a outra secção de convidados decidira tocar bateria, saxofone e guitarra, tudo ao mesmo tempo!, e a louca anfitriã dividida entre o seu companheiro que decidira desbundar no piano também e as primas feias, que cumprimentara quando chegaram com gritinhos histéricos e abraços nas pontas dos pés dignos de adolescentes no regresso às aulas depois das férias de verão,
cantou-se os parabéns (o bolo era horrível; esteticamente era lindo, mas sabia a qualquer coisa entre borracha e gelatina de detergente), e o namorido fez um discurso, deu-lhe os parabéns, disse que era o grande amor da sua vida - os seus três filhos, frutos dum casamento com outra mulher, entreolharam-se com aquela mistura enternecida de familiaridade e incredulidade - e toda a gente, inclusive a louca, ficou à espera que a pedisse em casamento, ela com olhinhos grandes, com as mãos a alisarem-lhe o braço, a beber-lhe o ar da boca,
mas não, ainda fez uma piadinha sobre isso e depois concluiu com uma piscadela, já meio trôpego do licor que andara a beber desde cedo, que não se pode sequer brincar com isso.
fazia anos, estava feliz e abraçava toda a gente com igual e não tão contagiante efusão, independentemente do grau de confiança que tinha com os que envolvia nos seus braços magros, era magra, quase esquelética, o que, combinado com os olhos enormes e o cabelo comprido e a estranha combi, tornava-a louca,
metade da festa eram amigos ou família do seu companheiro, um ex-solteirão quinze anos mais velho, que vivia fugindo das intenções casamenteiras da louca - embora cá entre nós eu ache que ela esteja grávida -, a outra metade eram amigos dela, novos, imaturos, novos ricos que falam alto e exibem suas mulheres com colares que eles mesmo deram, como se a mulher não passasse de um cabide onde iam pendurando sucessivamente as provas da sua nova riqueza e que à noite também se ajoelhavam à sua frente, desta secção, havia duas irmãs (ou primas), muito parecidas, com idênticos saltos de quatorze centímetros e idênticas saias de cinco, identicamente feias e medíocres, pintadas quase ao ponto de parecerem bonitas, que reclamaram que estava demasiado barulho para conversar porque a outra secção de convidados decidira tocar bateria, saxofone e guitarra, tudo ao mesmo tempo!, e a louca anfitriã dividida entre o seu companheiro que decidira desbundar no piano também e as primas feias, que cumprimentara quando chegaram com gritinhos histéricos e abraços nas pontas dos pés dignos de adolescentes no regresso às aulas depois das férias de verão,
cantou-se os parabéns (o bolo era horrível; esteticamente era lindo, mas sabia a qualquer coisa entre borracha e gelatina de detergente), e o namorido fez um discurso, deu-lhe os parabéns, disse que era o grande amor da sua vida - os seus três filhos, frutos dum casamento com outra mulher, entreolharam-se com aquela mistura enternecida de familiaridade e incredulidade - e toda a gente, inclusive a louca, ficou à espera que a pedisse em casamento, ela com olhinhos grandes, com as mãos a alisarem-lhe o braço, a beber-lhe o ar da boca,
mas não, ainda fez uma piadinha sobre isso e depois concluiu com uma piscadela, já meio trôpego do licor que andara a beber desde cedo, que não se pode sequer brincar com isso.
07 agosto 2012
indo
cá entre nós, eu gosto é de descobrir maltinha que escreve bem, embora isso não seja fácil, nada fácil, pouco me importa que me aches caprichosa, é bom descobrir um blog, na verdade, o melhor é ter tempo para isso, porque as férias começaram há demasiado tempo para as minhas costas continuarem neste nó, placa de mármore, tás a ver, no outro dia fiz uma massagem de mil dinheiros, era a minha prenda de anos do ano passado, 5 vales de massagem, e a massagista, uma branquela com a mania das índias, com um om ou oom ou lá como se escreve isso tatuado na perna ou no braço, não me lembro bem, disse-me que eu tinha os chakras da cabeça e do coração todos fodidos, e eu Tá bem, mas eu quero é a massagem, a verdade é que fiquei a pensar nisso,
mas é bom descobrir um blog que não tem um design que te encha de sensações, um blog que consigas efetivamente ler o que está escrito sem precisares de um filtro qualquer, que não tenha mil barras ao lado com coisas que na verdade não interessam a ninguém, na verdade, na verdade, já é a terceira vez, não é?, que chatice, um blog que seja, pura e simplesmente, coisas boas de se ler e não conselhos de vida, de moda, de comida, de relações, que não seja um relato de como fomos às compras ou como tivemos um super day com o boyfriend, que não trate o leitor como lovers, babies, sunshines, eu gosto de tratar por tu, já reparaste, que não classifique o comentário de bubbles, hearts, tosquias, bitaites, girassóis ou girafas, ok, inventei as últimas duas, e que não dê erros de português, acordo ortográfico à parte, que não separe o sujeito do predicado com uma vírgula, é possivelmente o que me deixa mais louca,
e pronto, se tiveres sugestões, manda aí, que o que eu quero é carne fresca
mas é bom descobrir um blog que não tem um design que te encha de sensações, um blog que consigas efetivamente ler o que está escrito sem precisares de um filtro qualquer, que não tenha mil barras ao lado com coisas que na verdade não interessam a ninguém, na verdade, na verdade, já é a terceira vez, não é?, que chatice, um blog que seja, pura e simplesmente, coisas boas de se ler e não conselhos de vida, de moda, de comida, de relações, que não seja um relato de como fomos às compras ou como tivemos um super day com o boyfriend, que não trate o leitor como lovers, babies, sunshines, eu gosto de tratar por tu, já reparaste, que não classifique o comentário de bubbles, hearts, tosquias, bitaites, girassóis ou girafas, ok, inventei as últimas duas, e que não dê erros de português, acordo ortográfico à parte, que não separe o sujeito do predicado com uma vírgula, é possivelmente o que me deixa mais louca,
e pronto, se tiveres sugestões, manda aí, que o que eu quero é carne fresca
02 agosto 2012
verão 2012
Explicação dos Pássaros, António Lobo Antunes
A Guerra do Fim do Mundo, Mario Vargas Llosa
The Inspector and Silence, Jo Nesbo
Carta Branca, Jeffrey Deaver
The Fear Index, Robert Harris
Um Amor Feliz, David Mourão-Ferreira
Dom Casmurro, Machado de Assis
Fifty Shades of Grey, EL James
Fifty Shades Darker, EL James
Fifty Shades Freed, EL James
A Guerra do Fim do Mundo, Mario Vargas Llosa
The Inspector and Silence, Jo Nesbo
Carta Branca, Jeffrey Deaver
The Fear Index, Robert Harris
Um Amor Feliz, David Mourão-Ferreira
Dom Casmurro, Machado de Assis
Fifty Shades of Grey, EL James
Fifty Shades Darker, EL James
Fifty Shades Freed, EL James
31 julho 2012
quando digo
que vou de férias para o brasil, as pessoas dão-me um sorrisão coberto de inveja enquanto dizem Que sorte com uma vontade que não lhes chega aos olhos, e, quando digo que vou para são paulo, dizem Ah, que giro, através dos dentes semicerrados num sorriso amarelo de quem acha que o brasil é só areia branca, água azul e um mulato a servir-te água de côco, de quem acha que as coisas são baratíssimas e que se vive muito melhor aqui, de quem nem sequer sabe onde é são paulo, ou que a população desta cidade excede a inteira de portugal, ou que andas quatro horas de avião e ainda estás no mesmo país,
digo-te já. são paulo é mais caro que portugal, assim, à grande, é uma selva de pedra, deixar de fumar nesta cidade é um paradoxo irónico, porque com a poluição fumas muito mais do que os teus sete chesterfields por dia, há dois rios, são cinzentos, margens de betão cinzentas, nunca andas a pé, sempre de carro, blindado, à noite nunca se pára num semáforo vermelho, e as portas estão sempre trancadas, nos semáforos há miúdos descalços mais novos que o meu irmão que vendem pastilhas, paçoca, bolas insufláveis, sombrinhas, jornais, revistas, panos de prato, bebidas, calculadoras gigantes e que se oferecem para lavar-te o vidro da frente, mesmo que digas que não, eles debruçam-se sobre o capot e nos 13 segundos que têm antes do sinal abrir passam água, sabão e ainda um cheirinho bom no final, batem-te no vidro com a mãozinha magra e suja e o mais certo é arrancares sem olhar para trás,
esta semana fui para o nordeste, e quase que vejo as caras dos que me escutam, Ah, o nordeste, deve ser lindo, é, é lindo, mas a definição de ... vida?, muda completamente, basta uma vila ter cinco ruas que é considerada cidade, uma cidade sem uma estrada alcatroada, tudo de areia, de terra, de barro, as casas são feitas de madeira e telhado de palha, folha de palmeira, e as que são de tijolo, são mesmo só de tijolo, sem reboco, sem nada, apenas com a fachada pintada de cores vivas e as paredes laterais naquela cor de ferrugem intercalada pelo cimento de areia que mostra que não valia a pena pintar o resto, os bebés andam nus e o resto anda de chinelos o tempo todo, putos de sete, oito, nove anos brincam no cais, mergulham e empurram-se uns aos outros, mas mal vêm um barco de turistas - ricos gordos brancos - chegar, vestem a t-shirt apressadamente e é vê-los a atropelarem-se para nos ajudar a sair, Olhà visita guiada ao farol, Se você quiser eu declamo uma poesia pro senhor, Se a senhora quiser posso ser seu guia, olha só, é só falar, fica à vontade,
e se no nordeste sinto-me capitalista, turista sem jeito, a andar na areia aos tropeções, a achar a areia demasiado quente, com a máquina ao pescoço, a máquina que vale mais do que um ano de subsistência daquela gente, por mais morena que fique nunca sou igual à cor dos índios que me olham com resguardo,
em são paulo também não me encaixo, porque, fazendo parte da classe rica, não sou chique o suficiente como as raparigas da minha idade, não me pinto todos os dias nem uso diamantes, não tive uma festa dos 15 anos e não tenho motorista,
nos músicos me encaixo, porque a linguagem é universal, tanto com os músicos que tocam em barzinhos em são paulo como com o marinheiro guitarrista que nos levou de barco pelo maranhão afora
digo-te já. são paulo é mais caro que portugal, assim, à grande, é uma selva de pedra, deixar de fumar nesta cidade é um paradoxo irónico, porque com a poluição fumas muito mais do que os teus sete chesterfields por dia, há dois rios, são cinzentos, margens de betão cinzentas, nunca andas a pé, sempre de carro, blindado, à noite nunca se pára num semáforo vermelho, e as portas estão sempre trancadas, nos semáforos há miúdos descalços mais novos que o meu irmão que vendem pastilhas, paçoca, bolas insufláveis, sombrinhas, jornais, revistas, panos de prato, bebidas, calculadoras gigantes e que se oferecem para lavar-te o vidro da frente, mesmo que digas que não, eles debruçam-se sobre o capot e nos 13 segundos que têm antes do sinal abrir passam água, sabão e ainda um cheirinho bom no final, batem-te no vidro com a mãozinha magra e suja e o mais certo é arrancares sem olhar para trás,
esta semana fui para o nordeste, e quase que vejo as caras dos que me escutam, Ah, o nordeste, deve ser lindo, é, é lindo, mas a definição de ... vida?, muda completamente, basta uma vila ter cinco ruas que é considerada cidade, uma cidade sem uma estrada alcatroada, tudo de areia, de terra, de barro, as casas são feitas de madeira e telhado de palha, folha de palmeira, e as que são de tijolo, são mesmo só de tijolo, sem reboco, sem nada, apenas com a fachada pintada de cores vivas e as paredes laterais naquela cor de ferrugem intercalada pelo cimento de areia que mostra que não valia a pena pintar o resto, os bebés andam nus e o resto anda de chinelos o tempo todo, putos de sete, oito, nove anos brincam no cais, mergulham e empurram-se uns aos outros, mas mal vêm um barco de turistas - ricos gordos brancos - chegar, vestem a t-shirt apressadamente e é vê-los a atropelarem-se para nos ajudar a sair, Olhà visita guiada ao farol, Se você quiser eu declamo uma poesia pro senhor, Se a senhora quiser posso ser seu guia, olha só, é só falar, fica à vontade,
e se no nordeste sinto-me capitalista, turista sem jeito, a andar na areia aos tropeções, a achar a areia demasiado quente, com a máquina ao pescoço, a máquina que vale mais do que um ano de subsistência daquela gente, por mais morena que fique nunca sou igual à cor dos índios que me olham com resguardo,
em são paulo também não me encaixo, porque, fazendo parte da classe rica, não sou chique o suficiente como as raparigas da minha idade, não me pinto todos os dias nem uso diamantes, não tive uma festa dos 15 anos e não tenho motorista,
nos músicos me encaixo, porque a linguagem é universal, tanto com os músicos que tocam em barzinhos em são paulo como com o marinheiro guitarrista que nos levou de barco pelo maranhão afora
17 julho 2012
março12
a linha
é
descontínua.
descontinua a seguir o seu caminho,
alternando entre espaços de nada
e momentos de tudo.
é
descontínua.
descontinua a seguir o seu caminho,
alternando entre espaços de nada
e momentos de tudo.
09 julho 2012
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