19h58
sentada numa cadeira laranja, mesmo na pontinha, a tentar fundir o meu vestido castanho com as tonalidades quentes da sala, à espera que o maestro pare o ensaio para perguntar quem é a menina na plateia, o violinista da terceira estante You want to watch the rehearsal? Come on, if anybody asks you say you come from me, nem sei o nome dele, mas deu-me segurança, se continuar com a cara enfiada neste caderno pode ser que ninguém note, o oboé já deu o lá
21h56
entretanto, fez-se escuro na plateia e já não consegui escrever mais, confirmo e reconfirmo, afinal o convite à minha clandestinidade foi feito pelo próprio maestro e não pelo violinista, sinto-me mais segura agora, até tive a audácia de sair da plateia a meio do ensaio em busca duma casa de banho, a dos bengaleiros estava fechada, voltei para a sala, perdi-me na orquestra, na cama, no cortador de relva e na cortina a esconder o coro, atenção exponenciada pelas poucas notas do naipe das trompas, o ensaio começou pontual, como é decerto costume, eram nove e trinta e um quando o maestro anunciou Let's take a break, vim cá fora, a bexiga a rebentar, Vai à dos homens, está aberta, espero que um, dois, três homens saiam de lá, corro para um cubículo, alivio-me às escuras, ainda lavo as mãos mas não tenho tempo para as secar, à saída dois metros de homem a olhar-me com surpresa Mas o que é isto?, a resposta improvisada É o meu irmão, É bem giro, eu vermelha de vergonha e a porta da casa de banho das mulheres, afinal, entreaberta
21 fevereiro 2013
15 fevereiro 2013
há quem chegue
à saída do aeroporto com um sorriso na cara, inspira fundo, respira o ar de portugal, de calorzinho, iiiinho, de fim de tarde, a luz que lisboa e mais nenhuma tem, estiveram fora uma semana, um ano, três, turistas também chegam com sorrisos, mas sem saber o que lhes espera, estão contentes de chegar, de férias, de conhecer,
um pai abraça o filho e fazem uma corrida na rampa das chegadas
um senhor gordo sai com a cara já enfiada no iPad
montes de gente sai agarrada ao telefone
uma rapariga sai ansiosa, procura, desfaz-se num sorriso e numa corrida para uns braços da amiga
um alemão com meia casa às costas
casais de meia idade vieram viver a aventura
executivos procuram os nomes nos cartazes das boleias
eu procuro um casaco vermelho e quando veio sem ele só reparei mesmo quando estava já com a boca na minha
aquele abraço
04 fevereiro 2013
ameijôas
apanhei o autocarro em benfica, Este pára em sete rios?, Olhe, é já a seguir, menina, a sentir-me turista na minha própria cidade, a adorar o desprendimento da rotina, o saborzinho a férias no canto da boca, comprei um bilhete, dois, para um comboio no qual nunca tinha andado e sentei-me no segundo andar com o entusiasmo novato de quem anda no segundo andar de um london bus, deixei campolide e alcântara para trás e pumba, de repente estava na ponte, o rio espelhando o sol do meio dia numa luz gloriosa, belém lá em baixo, indiferente à minha euforia, a continuar a servir pastéis e a exibir coisas culturais, a margem sul é diferente, o que tem de feio de urbanizações desorganizadas é compensado pelo cheiro do alentejo e pelo início de tarde soalheiro e pelos pinhais a torto e a direito, saio em coina, só me falta a mochila de campismo às costas, estou com calças finas de verão e com botas da montanha, um aparente contrasenso mas é roupa que me faz sentir de viagem, o capricho de não querer esperar pelo autocarro, apanho um taxi com o senhor luís que me abençoou, a mim e ao amor que me move, desde o momento que abri a porta, confessei-lhe que queria comer ameijôas e ele, Boa!, apanhei-te nas bombas da galp, ensonado e sorridente, já está tudo bem, estamos os dois agora, com a bênção do senhor luís, Vamos comer ameijôas?, Vamos!, os dois num carro com vontade de voar, beatles aos berros, nós aos berros, o sol aos berros, paramos num cafézinho no meio da estrada no meio do nada, Tem ameijôas?, Olhe, não, mas espere aí, foi ao vizinho buscar ameijôas fresquinhas e à horta colher coentros, comi as melhores ameijôas da minha vida, feitas por uma daquelas senhoras que tem ar de quem faz ameijôas há trinta anos, vamos para a praia, fazer render a comida e as imperiais, está gloriosa, o mar ruge, mas não está enfurecido, não pode, num dia como este só nos pode abençoar também, o silêncio é estranho quando a onda volta para trás à espera de se formar outra vez, despes-te e dás o primeiro mergulho do ano, este estado quase etéreo que atingimos neste dia quase que me deixa sem palavras para escrever, temos a praia só para nós e para o pôr do sol que aí vem, laranja, lindo, longo, chegamos a casa para tomar um banho depressa, ligamos ao senhor luís para nos deixar na estação outra vez e voltamos para lisboa, mini férias em dia de semana,
27 janeiro 2013
coeso
não usar a palavra muito quando não temos realmente a certeza
'gosto muito de cerejas'
sim?
'quer dizer, daquelas mais gordas, quando estão bem maduras, no pico do verão'
quer dizer a seguir ao muito a mim dá-me comichão na palma da mão, fico insegura, afinal é ou não é?, quando te digo que gosto muito de ti não há um quer dizer nem um pensando melhor nem um às vezes, é só assim, muito, eu gosto muito de ti,
irracional, irremediavelmente irracional, atracção química física metafísica astronómica universal explosiva, quero(-te) sempre mais e tu dizes sim, sim, muito, dás-me tudo a dobrar, enches-me o peito a cabeça a alma, passas-me as mãos no cabelo na cara no peito,
eu e tu encostados a um vidro, presos pelo olhar um do outro, conversando apenas por convenção, porque nos queremos tão bem que não precisamos falar sequer
'gosto muito de cerejas'
sim?
'quer dizer, daquelas mais gordas, quando estão bem maduras, no pico do verão'
quer dizer a seguir ao muito a mim dá-me comichão na palma da mão, fico insegura, afinal é ou não é?, quando te digo que gosto muito de ti não há um quer dizer nem um pensando melhor nem um às vezes, é só assim, muito, eu gosto muito de ti,
irracional, irremediavelmente irracional, atracção química física metafísica astronómica universal explosiva, quero(-te) sempre mais e tu dizes sim, sim, muito, dás-me tudo a dobrar, enches-me o peito a cabeça a alma, passas-me as mãos no cabelo na cara no peito,
eu e tu encostados a um vidro, presos pelo olhar um do outro, conversando apenas por convenção, porque nos queremos tão bem que não precisamos falar sequer
22 janeiro 2013
não
não à dor de cabeça
não a portarmo-nos como era no secundário, não é, a não aguentar quatro horas seguidas de aula, aguenta, estás no último ano de faculdade, e até já sabes que vais ter quatro horas de aula, intervalo no meio, quinze minutos esticados até aos vinte cinco, se já sabes, aguenta, porra!, não te rias, foca-te,
fo-ca-te
canta, não fales, ouve, pode ser que te sirva, tu não sabes, não trabalhas, não demoras duas horas a chegar à escola, não fazes mais nada senão desconcentrar-te quando tens quatro horas de aula seguidas, não tens que te levantar às seis no dia a seguir e aguentar-te até às nove da noite,
focus
vá lá, se não o fazes por ti, faz por mim, sou bruta, mando calar, desespero, bufo, suo, rosno, sou desagradável, se fizesses um terço do que eu faço também serias assim, não te chateies que eu gosto de ti, mas fogo,
não à dor de cabeça à terça feira, por favor
não a portarmo-nos como era no secundário, não é, a não aguentar quatro horas seguidas de aula, aguenta, estás no último ano de faculdade, e até já sabes que vais ter quatro horas de aula, intervalo no meio, quinze minutos esticados até aos vinte cinco, se já sabes, aguenta, porra!, não te rias, foca-te,
fo-ca-te
canta, não fales, ouve, pode ser que te sirva, tu não sabes, não trabalhas, não demoras duas horas a chegar à escola, não fazes mais nada senão desconcentrar-te quando tens quatro horas de aula seguidas, não tens que te levantar às seis no dia a seguir e aguentar-te até às nove da noite,
focus
vá lá, se não o fazes por ti, faz por mim, sou bruta, mando calar, desespero, bufo, suo, rosno, sou desagradável, se fizesses um terço do que eu faço também serias assim, não te chateies que eu gosto de ti, mas fogo,
não à dor de cabeça à terça feira, por favor
10 janeiro 2013
sobre taxis
apanhei dois taxis hoje, os condutores eram os dois gagos, como se não estivessem habituados à simpatia do passageiro alheio, embrulhavam-se às vezes no início das palavras,
o primeiro ouvia a antena 2, gostava de música clássica, apesar de nem sempre a antena 2 passar música de qualidade, vinha a ouvir um quarteto de cordas, uma coisa contemporânea, gostei, achava que as escolas de condução deviam ensinar os alunos a ter noção dos outros, Em vez de debitarem as matérias todas que vocês lá aprendem, este radar na avenida de ceuta só apanha até 50 metros depois, aqui já pode acelerar à vontade, hoje parecia que o céu ia desabar em benfica, mas está tudo bem porque os lençóis freáticos ainda estão fraquinhos nesta altura do ano, e bicicletas, não há condições para se andar de bicicleta em lisboa,
o segundo, Não há dinheiro, vocês então, os estudantes, deve ser mais complicado, rendas de 500 euros, mais a faculdade, mais os outros gastos, tudo contadinho ao fim do mês, antes apanhava aqui muitos jovens que iam para o bairro, agora, agora, olha, jantam todos em casa ou vão lá ter depois do jantar, pagam um absurdo para estudar e depois saem para o desemprego, lá fora é que se está bem, mas não há nada como portugal, a luz de lisboa, alcântara antiga, o pão, o chouriço, o azeite, o vinho, o clima, os estrangeiros vêm cá e dizem I love portugal, pudera, 10º no inverno, andam de t-shirt e bermudas na rua,
o primeiro ouvia a antena 2, gostava de música clássica, apesar de nem sempre a antena 2 passar música de qualidade, vinha a ouvir um quarteto de cordas, uma coisa contemporânea, gostei, achava que as escolas de condução deviam ensinar os alunos a ter noção dos outros, Em vez de debitarem as matérias todas que vocês lá aprendem, este radar na avenida de ceuta só apanha até 50 metros depois, aqui já pode acelerar à vontade, hoje parecia que o céu ia desabar em benfica, mas está tudo bem porque os lençóis freáticos ainda estão fraquinhos nesta altura do ano, e bicicletas, não há condições para se andar de bicicleta em lisboa,
o segundo, Não há dinheiro, vocês então, os estudantes, deve ser mais complicado, rendas de 500 euros, mais a faculdade, mais os outros gastos, tudo contadinho ao fim do mês, antes apanhava aqui muitos jovens que iam para o bairro, agora, agora, olha, jantam todos em casa ou vão lá ter depois do jantar, pagam um absurdo para estudar e depois saem para o desemprego, lá fora é que se está bem, mas não há nada como portugal, a luz de lisboa, alcântara antiga, o pão, o chouriço, o azeite, o vinho, o clima, os estrangeiros vêm cá e dizem I love portugal, pudera, 10º no inverno, andam de t-shirt e bermudas na rua,
31 dezembro 2012
2013
aquela sensação abstracta de janeiro ser o início de alguma coisa, na minha cabeça surge assim, janeiro no início e dezembro no fim,
30 dezembro 2012
não devíamos ter que escolher
temos sempre, dizes tu, do alto da tua altivez, redundância redonda, aliteração a mais,
pois, digo-te eu, cá de baixo da minha alma todavia feliz, mas não devíamos ter que escolher já, eu sei lá o que é que quero ser quando for grande, o problema é que o que decidimos agora já é a valer, como na escola quando jogávamos aos berlindes ao ganhas, era toda uma nova dimensão, o medo de nunca veres mais o teu guelas preferido que tinha partes douradas que brilhavam, agora também é tudo ao ganhas, ou ao perdes, e é difícil, tantas convenções a esmagar-me o cérebro de todos os lados, no final fica assim uma ervilha pequenina com capacidade de pensar adiantado no máximo em semanas, nem me venham falar de meses, anos, de vida, qué isso?,
eu já escolhi algumas coisas, uma delas ter tempo, disseram-me no outro dia que soava a uma mulher de trinta anos, espremida pelo stress do quotidiano, pois bem, tinha razão, eu agora escolhi largar (quase) tudo, focar-me no último ano de faculdade - último? ai - escolhi oito horas de sono por noite, escolhi
Amar
assim, desligando do contexto óbvio, porque me faz feliz, e se não tenho tempo para ser feliz... qual é o objectivo?, o meu objecto é um sorriso de orelha a orelha quando me vê, de metro e oitenta, só de (d)escrever fico feliz, tudo bem, está tudo bem, mesmo
pois, digo-te eu, cá de baixo da minha alma todavia feliz, mas não devíamos ter que escolher já, eu sei lá o que é que quero ser quando for grande, o problema é que o que decidimos agora já é a valer, como na escola quando jogávamos aos berlindes ao ganhas, era toda uma nova dimensão, o medo de nunca veres mais o teu guelas preferido que tinha partes douradas que brilhavam, agora também é tudo ao ganhas, ou ao perdes, e é difícil, tantas convenções a esmagar-me o cérebro de todos os lados, no final fica assim uma ervilha pequenina com capacidade de pensar adiantado no máximo em semanas, nem me venham falar de meses, anos, de vida, qué isso?,
eu já escolhi algumas coisas, uma delas ter tempo, disseram-me no outro dia que soava a uma mulher de trinta anos, espremida pelo stress do quotidiano, pois bem, tinha razão, eu agora escolhi largar (quase) tudo, focar-me no último ano de faculdade - último? ai - escolhi oito horas de sono por noite, escolhi
Amar
assim, desligando do contexto óbvio, porque me faz feliz, e se não tenho tempo para ser feliz... qual é o objectivo?, o meu objecto é um sorriso de orelha a orelha quando me vê, de metro e oitenta, só de (d)escrever fico feliz, tudo bem, está tudo bem, mesmo
25 dezembro 2012
paris
quando fiz doze anos ofereceram-me uma viagem a paris, ia lá ter com o meu primo, o meu primo preferido, dois anos mais novo, viajei sozinha de avião com aquelas bolsas mitras ao pescoço com o passaporte e o bilhete lá dentro, uma hospedeira de bordo atenciosa sempre de olho em mim e nas outras duas crianças que viajavam comigo, uma não me lembro, o outro era um miúdo armado em bom a ver se me impressionava, decerto a visitar os avós emigrantes na frança, quando o avião saiu do chão foi sem cinto, com a mão a tapar mais ou menos para a hospedeira não o repreender, mas o suficiente para que eu pudesse reparar, e reparei, lembro-me de ter sentido uma pontada de superioridade e olhar para o lado a pensar 'que idiota',
era verão, junho, e fazia calor em paris, andava de calções, óculos de sol graduados e um chapéu de pala da nike, vermelho, fui à torre eiffel e subi de escadas, andávamos com uma baby-sitter coreana, não me lembro o nome, infelizmente, era querida, fomos à torre eiffel e o que mais queríamos era andar num parque de diversões precário que havia no jardim ao lado, ela indecisa, nós só queríamos andar na montanha-russa da água, íamos dentro dum tigre e na descida final levávamos um banho inevitável daquela água salobra, ela lá cedeu, era mesmo querida, ofereceu-me um ganchinho com missangas verdes antes de me ir embora, mesmo depois de eu e o meu primo termos posto um copo com água em cima da porta e dizer-lhe para passar por lá, e de cuspirmos pela varanda na cabeça das pessoas que passeavam na bastille, ela não se conseguia zangar,
uma noite fizemos um piquenique ao luar, eu e o meu primo a fazer sandes a tarde toda e a convencer os meus tios que era uma óptima ideia, fomos, estava daquelas noites quentes, foi brutal,
outro dia fomos para o campo, fizemos malas à pressa antes do jantar, 'leva um casaco e calças que lá faz frio', comemos arroz take away do chinês da esquina, nunca comi um arroz xau xau tão bom como aquele, lá no campo havia um laguinho e uma piscina e um barco de plástico, apanhávamos sol até não podermos mais no barco que estava no lago, quando não aguentávamos mais saltávamos para a piscina, gelada, e depois de volta para o barco, e assim sucessivamente, às vezes o barco fugia e tínhamos que saltar para dentro do lago, tirávamos à sorte, par ou ímpar, era um nojo, sentir o lodo e outras coisas a prenderem-se nas nossas pernas,
o meu primo tinha um tio, que não é meu tio, que veio ter connosco de helicóptero, eu andei de helicóptero, tínhamos que usar auscultadores para falarmos uns com os outros e por causa do barulho, eu lembro-me que os meus estavam tão quentes, queimavam-me a orelha, mas eu toda borradinha com medo de os tirar aguentei, parece que estás numa bolha, vês tudo a um ângulo quase completo, viras ao sabor da bolha, foi mesmo giro,
gosto mesmo do meu primo, ainda hoje é dos meus melhores amigos, vejo-o uma ou duas vezes por ano e parece que não passou tempo nenhum
era verão, junho, e fazia calor em paris, andava de calções, óculos de sol graduados e um chapéu de pala da nike, vermelho, fui à torre eiffel e subi de escadas, andávamos com uma baby-sitter coreana, não me lembro o nome, infelizmente, era querida, fomos à torre eiffel e o que mais queríamos era andar num parque de diversões precário que havia no jardim ao lado, ela indecisa, nós só queríamos andar na montanha-russa da água, íamos dentro dum tigre e na descida final levávamos um banho inevitável daquela água salobra, ela lá cedeu, era mesmo querida, ofereceu-me um ganchinho com missangas verdes antes de me ir embora, mesmo depois de eu e o meu primo termos posto um copo com água em cima da porta e dizer-lhe para passar por lá, e de cuspirmos pela varanda na cabeça das pessoas que passeavam na bastille, ela não se conseguia zangar,
uma noite fizemos um piquenique ao luar, eu e o meu primo a fazer sandes a tarde toda e a convencer os meus tios que era uma óptima ideia, fomos, estava daquelas noites quentes, foi brutal,
outro dia fomos para o campo, fizemos malas à pressa antes do jantar, 'leva um casaco e calças que lá faz frio', comemos arroz take away do chinês da esquina, nunca comi um arroz xau xau tão bom como aquele, lá no campo havia um laguinho e uma piscina e um barco de plástico, apanhávamos sol até não podermos mais no barco que estava no lago, quando não aguentávamos mais saltávamos para a piscina, gelada, e depois de volta para o barco, e assim sucessivamente, às vezes o barco fugia e tínhamos que saltar para dentro do lago, tirávamos à sorte, par ou ímpar, era um nojo, sentir o lodo e outras coisas a prenderem-se nas nossas pernas,
o meu primo tinha um tio, que não é meu tio, que veio ter connosco de helicóptero, eu andei de helicóptero, tínhamos que usar auscultadores para falarmos uns com os outros e por causa do barulho, eu lembro-me que os meus estavam tão quentes, queimavam-me a orelha, mas eu toda borradinha com medo de os tirar aguentei, parece que estás numa bolha, vês tudo a um ângulo quase completo, viras ao sabor da bolha, foi mesmo giro,
gosto mesmo do meu primo, ainda hoje é dos meus melhores amigos, vejo-o uma ou duas vezes por ano e parece que não passou tempo nenhum
passeio
'quando me casei com o teu avô estava a meio do curso de odontologia, isto em 58; na minha altura não era muito costume as mulheres irem para a faculdade e, se fossem, era para arquitetura, os homens para engenharia e as mulheres para arquitetura, ou então casavam aos vinte e ficavam em casa a bordar o enxoval; o teu avô recebeu uma indemnização de guerra cerca de um ano antes de nos casarmos e disse ao tio dele, que o tinha criado os últimos dez anos, que não queria construir uma vida com base naquele dinheiro sujo, o tio, sujeito rígido, disse que ele era um idiota se não poupasse esse dinheiro e disse-lhe que se comprasse uma viagem perderia o emprego que tinha na sua empresa, gastámos o dinheiro todo numa lua de mel de quatro meses a viajar pela europa - budget 5 dollars a day - numa altura em que andar de avião era raro, escolhíamos sempre os vôos com refeições incluídas, fiquei grávida nessa viagem do teu tio, o teu avô zangou-se comigo porque eu andava sempre enjoada e eu chorei imenso, afinal estava grávida, quando voltámos para o brasil - voltei para o brasil com um filho e o teu avô sem emprego, começou assim a nossa vida a dois - a bisa Dora tomava conta do Roberto e eu tinha um consultório no anexo ao lado da casa, quando a tua mãe nasceu o teu avô arranjou trabalho no uruguai e fomos todos, nunca mais trabalhei como dentista'
08 dezembro 2012
relâmpago
quando me esqueço de ser livre, num relâmpago me acodes o espírito, apertas-me com força, espremes-me tudo para fora, queres fazer uma limonada de mim?, tenho sumo, muito, já reparaste, com certeza, não é preciso açúcar nem nada, há uns meses deixei de beber café com açúcar e não faz assim tanta falta, é só experimentares, palavras soltas à roda na minha cabeça, acho que a indisposição destes dias é nervosismo, mil e uma borboletas - pannonica, my butterfly - a dançar o vira no meu estômago, nem sei bem porquê, pára de chover quando nossas bocas se encontram, assim, num relâmpago
02 dezembro 2012
o bairro não faz sentido
toda a gente diz o bairro, o bairro, qual bairro, pá!, há tantos e tão melhores, mas o bairro é que é, olha para mim não faz sentido, as pessoas iguais, as tascas iguais, as paredes, as ruas, os nomes das ruas, iguais, é o bairro,
vinha a conduzir, não ia depressa, na marginal, um idiota a abrandar sem razão aparente à minha frente, nem houve estrondo nem nada, vejo o que parece ser um capot a voar à minha frente, só que com pernas e pêlos, o meu carro ainda deu um soluço quando passou por cima duma pata, era um cão, afinal era um cão, grande, espero que tenha morrido logo, que infelicidade morrer assim, numa noite de dez graus no meio da marginal,
aborrece-me o bairro,
prefiro
sei lá o quê, parecia que queria escrever, mas se calhar não, vai na volta ainda escrevo mais cinquenta linhas de nada para quem tiver paciência de as ler até ao fim, aqui fica o aviso,
esvai-se tudo dos dedos, fica a mente a trabalhar, tic-tac,
vinha a conduzir, não ia depressa, na marginal, um idiota a abrandar sem razão aparente à minha frente, nem houve estrondo nem nada, vejo o que parece ser um capot a voar à minha frente, só que com pernas e pêlos, o meu carro ainda deu um soluço quando passou por cima duma pata, era um cão, afinal era um cão, grande, espero que tenha morrido logo, que infelicidade morrer assim, numa noite de dez graus no meio da marginal,
aborrece-me o bairro,
prefiro
sei lá o quê, parecia que queria escrever, mas se calhar não, vai na volta ainda escrevo mais cinquenta linhas de nada para quem tiver paciência de as ler até ao fim, aqui fica o aviso,
esvai-se tudo dos dedos, fica a mente a trabalhar, tic-tac,
23 novembro 2012
cinzento pardo
ando de cabeça baixa, a jogar sozinha ao jogo de não pisar os riscos do chão, o frenesim da hora de ponta aos pulos à minha volta, eu a não pisar os riscos, é fácil, tenho o pé pequeno, as pessoas tocam-me, empurram-me, querem apanhar o próximo metro, o próximo comboio, para quê?, há outro a seguir, tanta pressa, tanta sede de querer, de fazer, de fazer já, calma, respira fundo, pensa bem, percebe alguma coisa, não me incomoda o contacto físico dos empurrões e, todavia, um abraço genuíno dum amigo querido sufocou-me até às órbitas, deixa-me, não quero, as pessoas têm livros, hoje fui olhada com interesse porque entrei no comboio com um calhamaço na mão, a brincar digo que é um dicionário, neste momento estou na recta final, literalmente, do meu itinerário e isso aborrece-me, queria antes perder o comboio, ou ir noutra direcção, os dias sem cor voltaram, pelo menos hoje foi, há um senhor atrás de mim com um assobio afinado, quem me dera, o assobio, não o senhor, o som é interrompido por Querida, já estou no comboio, senti ternura na informação quotidiana, logo retoma a melodia improvisada, eu vou enfiar o livro no, não, o nariz no livro, fingir que são curvas até casa em vez duma recta.
terça-feira é um dia de cão
sou a última a chegar a casa - a luz do hall está sempre acesa quando chego - e a primeira a sair no dia seguinte, a chegada e a partida intercaladas por cinco míseras horas de sono, chego a casa e normalmente tenho que escolher se quero comer ou dormir, venho esganada de fome, janto uma sandes feita à pressa por volta das oito e quando chego a casa, já nas horas pequeninas de quarta-feira, venho com fome, peso as duas necessidades na balança, penso sempre que preciso mais de dormir, mas o sono perturbado que é costume seja talvez devido ao buraco no estômago
15 novembro 2012
intercalar
os professores do ensino básico têm uma aura, transpiram aquele ar cansado de quem gritou todo o dia e, passado uns anos, esqueceram-se porque é que quiseram ser professores, hoje havia de tudo, vi uma professora ainda não afectada pelo trauma das escolas públicas realmente preocupada com o bem-estar físico e psicológico dos seus alunos,
fiz 248km em três dias, é demasiado tempo num carro,
já a outra teceu uma série de comentários sucessivos e desagradáveis sobre alunos que só posso concluir que detesta ensinar ou falta-lhe alguma coisa, ou os dois, a quem é que não faltam coisas hoje em dia?, fui beber um café com um colega com mais do dobro da minha idade, contou que não era fácil estudar violino na altura dele, ordenhava vacas e trabalhava na terra, tinha os dedos grossos e ásperos, muito gordos para o violino, tinha colegas de piano muito delicadas que lhe perguntavam se as cordas não lhe magoavam, ele a dizer que se ria, São como veludo!, fugia ao pai para estudar violino, fazia trinta quilómetros à chuva de caixa às costas, depois das vacas e da terra,
trinta euros de gasolina não dá para três dias, é triste,
na escola primária, sentava-me ao pé do meu namorado nas aulas e dávamos as mãos, era uma combinação perfeita, eu dava-lhe a direita e ele dava-me a esquerda e assim namorávamos e escrevíamos ao mesmo tempo,
e o trânsito, e acidentes, e pessoas a tirar macacos do nariz, e carros a entupir a estrada com uma pessoa apenas lá dentro, e garagem, e ter que encontrar lugar para estacionar, e achar que compensa ir de carro do que transportes, mas não,
uns seis ou sete anos depois, reencontrei-o, e reatámos, o primeiro namoro a sério, a primeira vez, uma série de impressões que ficaram, tinha o mesmo perfume que tu,
é muito melhor ir de mota, liberdadeliberdadeliberdade, se não me agarrar caio, e sabe bem agarrar-me, apertar as coxas quando passamos entre carros e parece que vamos levar com um espelho no abdómen e sentir-te a sorrir dentro dum capacete, chegar com as pernas bambas, a adrenalina - podes ir mais depressa para a próxima - a adrenalina a substituir o lugar de qualquer coisa que me falta cá dentro,
agora está um homem formado, cozinheiro, vai ter um filho, estamos tão próximos em idades e tão longe em estados da vida,
tinha só a quarta classe e só tirou o secundário depois dos 24, achas que se ralou?, hoje é efectivo numa escola pública onde os professores já se esqueceram porque é que dão aulas,
fiz 248km em três dias, é demasiado tempo num carro,
já a outra teceu uma série de comentários sucessivos e desagradáveis sobre alunos que só posso concluir que detesta ensinar ou falta-lhe alguma coisa, ou os dois, a quem é que não faltam coisas hoje em dia?, fui beber um café com um colega com mais do dobro da minha idade, contou que não era fácil estudar violino na altura dele, ordenhava vacas e trabalhava na terra, tinha os dedos grossos e ásperos, muito gordos para o violino, tinha colegas de piano muito delicadas que lhe perguntavam se as cordas não lhe magoavam, ele a dizer que se ria, São como veludo!, fugia ao pai para estudar violino, fazia trinta quilómetros à chuva de caixa às costas, depois das vacas e da terra,
trinta euros de gasolina não dá para três dias, é triste,
na escola primária, sentava-me ao pé do meu namorado nas aulas e dávamos as mãos, era uma combinação perfeita, eu dava-lhe a direita e ele dava-me a esquerda e assim namorávamos e escrevíamos ao mesmo tempo,
e o trânsito, e acidentes, e pessoas a tirar macacos do nariz, e carros a entupir a estrada com uma pessoa apenas lá dentro, e garagem, e ter que encontrar lugar para estacionar, e achar que compensa ir de carro do que transportes, mas não,
uns seis ou sete anos depois, reencontrei-o, e reatámos, o primeiro namoro a sério, a primeira vez, uma série de impressões que ficaram, tinha o mesmo perfume que tu,
é muito melhor ir de mota, liberdadeliberdadeliberdade, se não me agarrar caio, e sabe bem agarrar-me, apertar as coxas quando passamos entre carros e parece que vamos levar com um espelho no abdómen e sentir-te a sorrir dentro dum capacete, chegar com as pernas bambas, a adrenalina - podes ir mais depressa para a próxima - a adrenalina a substituir o lugar de qualquer coisa que me falta cá dentro,
agora está um homem formado, cozinheiro, vai ter um filho, estamos tão próximos em idades e tão longe em estados da vida,
tinha só a quarta classe e só tirou o secundário depois dos 24, achas que se ralou?, hoje é efectivo numa escola pública onde os professores já se esqueceram porque é que dão aulas,
04 novembro 2012
sobre o amor hipotético
Quando o amor hipotético se nos apresenta, somos atacados pela avassaladora dúvida entre o querer e seu contrário. Entre o querer agora e nunca mais, a projecção de um futuro que depressa demais se torna improjeccionável e o ridículo da situação em que nós próprios nos enfiámos.
Depois, no recato, os actos e palavras iluminam-se em nova perspectiva e abanamos a cabeça num gesto de incredulidade e condescendência para com nós próprios, essa redundância que fere, e assim permanecemos, serenos, até ao próximo convite disfarçado de sorriso íntimo e olhar que despe.
Quando surge, normalmente depois de um hiato de duração variável, hesitamos. Já faz algum tempo desde o último reencontro, o suficiente para nos esquecermos, ou não nos lembrarmos, da ansiedade que foi aguentar uma, duas horas de conversa de interesse a puxar para o menos - nessa altura, da última vez, perguntámo-nos o que estávamos ali a fazer, mas agora já não nos lembramos. Não faz mal. A promessa de um telefonema em breve não nos parece tão vazia assim e é fácil acreditar que estamos realmente com bom ar. O ímpeto das primeiras impressões assola-nos sem piedade e sentimos na pele a agradável fricção da primeira vez. Por isso, acreditamos. Dizemos que sim.
Chegados espaço e tempo, os muitos minutos de espera pelos quais passamos revelam-se aquém do tolerável. Sentimo-nos um pouco estúpidos, às voltas nas redondezas de um café, fingindo afazeres. Depois disso, a conversa é vaga, baça e centrada num eixo que nos é divergente. Mesmo assim, é salpicada de ambiguidades, elogios directos e sugestões omnipresentes, o que nos enche com uma esperança ténue, sim, ténue - à quinta vez não somos assim tão ingénuos - de que podemos saciar essa ânsia dos lábios se inventarmos interesse durante tempo suficiente.
Normalmente, termina com garantias de que foi um bom bocado e, mais uma, promessa de breve reatar.
Recomeça o ciclo.
30 outubro 2012
já está frio suficiente
que frio, pergunta-me, abaixo de 15 graus é frio, está bem?
para fazer tricot nos transportes públicos para me distrair do caminho de sempre, não obstante a beleza e a grandeza marina a dar-me cotoveladas do outro lado do vidro, finjo que não é nada comigo e continuo, agulha debaixo do braço, sento-me estrategicamente num lugar não à janela, 1, para não me render à vista e 2, para não acertar em ninguém com a agulha que corta o ar, assim vou, perante olhares divertidos de algumas pessoas, velhotas simpatizam comigo sem sequer termos uma conversa, às vezes perguntam-me o que vou fazer, é um cachecol, é sempre um cachecol, é só fazer carreiras atrás de carreiras, sem precisar contar, sem precisar acertar o ponto, é terapêutico na verdade, julgas que faço cachecóis para quê?, estou ali na minha viagem privada, claclaclac, o ferro a bater um num outro um som acolhedor e familiar, há pessoas que fazem terapia por osmose, fixam as agulhas, de olhar baço, e vêem a malha a nascer, ignorando a conversa que lhes é dirigida, para quê ligar a conversas, se o simples movimento das agulhas é o suficiente para te alienares do mundo, há moca melhor?, é grátis, é fácil, e podes fazê-lo no comboio sem que ninguém te chateie
para fazer tricot nos transportes públicos para me distrair do caminho de sempre, não obstante a beleza e a grandeza marina a dar-me cotoveladas do outro lado do vidro, finjo que não é nada comigo e continuo, agulha debaixo do braço, sento-me estrategicamente num lugar não à janela, 1, para não me render à vista e 2, para não acertar em ninguém com a agulha que corta o ar, assim vou, perante olhares divertidos de algumas pessoas, velhotas simpatizam comigo sem sequer termos uma conversa, às vezes perguntam-me o que vou fazer, é um cachecol, é sempre um cachecol, é só fazer carreiras atrás de carreiras, sem precisar contar, sem precisar acertar o ponto, é terapêutico na verdade, julgas que faço cachecóis para quê?, estou ali na minha viagem privada, claclaclac, o ferro a bater um num outro um som acolhedor e familiar, há pessoas que fazem terapia por osmose, fixam as agulhas, de olhar baço, e vêem a malha a nascer, ignorando a conversa que lhes é dirigida, para quê ligar a conversas, se o simples movimento das agulhas é o suficiente para te alienares do mundo, há moca melhor?, é grátis, é fácil, e podes fazê-lo no comboio sem que ninguém te chateie
26 outubro 2012
fogo de artifício
uma vez estava a voltar para casa e era quase meia noite, estava uma noite média, nem fria nem quente, nem chuva nem luar, meio encoberto, misterioso, estava a passar por aquela rua que há em cima do monte, olhas para a frente e vês só a planície urbana e atrás a serra, natureza imponente, nesta noite não se via porque estavam demasiadas nuvens no céu, estava nessa rua e vejo um carro parado, mais ou menos no meio da rua, pensei logo que raio de sítio para mandar uma, mas os vidros nem estavam embaciados nem nada, fui aproximando o meu carro e depois vi, lá ao fundo, a propósito do encerramento de umas festas regionais quaisquer, o fogo de artifício, vista privilegiada da estrada do monte, encostei eu também, pus o pisca para a direita, e ali fiquei, o motor do carro a perturbar-me, passado um bocado desliguei-o, chegaram mais dois carros, tiveram um momento de hesitação, vou fazer sinais de luzes a estes pacóvios que estão aqui parados?, mas depois também se renderam ao espectáculo visual, éramos quatro, encostados à direita, ficámos lá os dez minutos que aquilo durou, ligamos os respectivos carros e seguimos caminho, eu falo por mim, até vinha meio morta pela estrada afora, aquele momento deu-me uma boa energia qualquer, olha para mim, que parva, a criar ligações com pessoas dentro de carros
22 outubro 2012
nunca nos tivemos numa situação normal
disseste-me isto assim a seco, no meio de uma troca de palavras que ainda nem tínhamos percebido que era discussão,
eu rendi-me logo à inevitabilidade da tua frase, não, não há como fugir, tens razão, como é que chegámos a esta conversa afinal?, tem sido tão bom, uma existência conjunta sem precisar de trabalho, é bom quando as coisas existem sem dar trabalho, e agora, nem passou um mês, ou será que já passaram dez?, quando começámos a contar?, o que é um mês?, o que são dias se tens milhares de quilómetros, o que são esses quantificáveis?, nem passou um mês e esbarrámos logo na primeira barreira, assim, de testa na pedra, de fazer galo, cheios de medo,
temos medo porque nunca nos tivemos numa situação normal,
de dizer coisas um ao outro, ao mesmo tempo queremos ser sinceros, não queremos ser demasiado sérios, queremos demasiada coisa, bolas!, não dá para tudo ao mesmo tempo, o que vale é que temos tempo, e isso tornou-se inevitável, por isso é só esperar
hmpf!, só!,
não tens que fazer nada, esperar
nunca nos tivemos numa situação normal, tirando talvez quando lavámos os dentes lado a lado dentro duma casa de banho imparcial, eu sempre muito mais rápida que tu, os nossos olhos colados um no outro no reflexo, a espuma a transbordar igualmente de ambas as bocas, (quem lava os dentes de boca fechada?),
esperas, é bom, uma ilusão de que não tens que fazer nada, pensar em nada, na verdade, róis-te todo, todo o dia, todos os dias, a pensar se não estás à espera duma grande parvoíce, ou se podes mesmo dar-te ao luxo de acreditar no que esperas,
ainda houve uma vez em tua casa, chegámos e o sol já tinha nascido, lavámos os dentes lado a lado, sentados na borda da tua banheira, todos os outros a dormir, tu a puxares-me para te dar um beijo, eu a fugir para lavar os dentes, a dizer que não a querer que sim, acabei antes de ti, sou mais rápida, lavei a boca e sequei-a com as costas da mão, deixando-te na borda da banheira a desejar-me, eu a flutuar para fora dali, a pensar que sabia tudo, que estava a fazer o mais certo
pfff
eu rendi-me logo à inevitabilidade da tua frase, não, não há como fugir, tens razão, como é que chegámos a esta conversa afinal?, tem sido tão bom, uma existência conjunta sem precisar de trabalho, é bom quando as coisas existem sem dar trabalho, e agora, nem passou um mês, ou será que já passaram dez?, quando começámos a contar?, o que é um mês?, o que são dias se tens milhares de quilómetros, o que são esses quantificáveis?, nem passou um mês e esbarrámos logo na primeira barreira, assim, de testa na pedra, de fazer galo, cheios de medo,
temos medo porque nunca nos tivemos numa situação normal,
de dizer coisas um ao outro, ao mesmo tempo queremos ser sinceros, não queremos ser demasiado sérios, queremos demasiada coisa, bolas!, não dá para tudo ao mesmo tempo, o que vale é que temos tempo, e isso tornou-se inevitável, por isso é só esperar
hmpf!, só!,
não tens que fazer nada, esperar
nunca nos tivemos numa situação normal, tirando talvez quando lavámos os dentes lado a lado dentro duma casa de banho imparcial, eu sempre muito mais rápida que tu, os nossos olhos colados um no outro no reflexo, a espuma a transbordar igualmente de ambas as bocas, (quem lava os dentes de boca fechada?),
esperas, é bom, uma ilusão de que não tens que fazer nada, pensar em nada, na verdade, róis-te todo, todo o dia, todos os dias, a pensar se não estás à espera duma grande parvoíce, ou se podes mesmo dar-te ao luxo de acreditar no que esperas,
ainda houve uma vez em tua casa, chegámos e o sol já tinha nascido, lavámos os dentes lado a lado, sentados na borda da tua banheira, todos os outros a dormir, tu a puxares-me para te dar um beijo, eu a fugir para lavar os dentes, a dizer que não a querer que sim, acabei antes de ti, sou mais rápida, lavei a boca e sequei-a com as costas da mão, deixando-te na borda da banheira a desejar-me, eu a flutuar para fora dali, a pensar que sabia tudo, que estava a fazer o mais certo
pfff
20 outubro 2012
'ele gosta de miúdas exóticas'
disse-me ele, em tom de confidência, apontando-me o ele em questão, profundamente embrenhado nas feições eslavas da rapariga à sua frente, olhos muito claros, pele branca e cabelo escuro, alta, aquele nariz característico e um ar geralmente aborrecido, como era o caso,
'eu gosto de raparigas mais simples'
como aquela do teu coro, como é que ela se chama?, é bonita, simples, não anda praí a dar nas vistas, mas se olhares com mais atenção é a mais bonita de todas,
eu a pensar, e eu?, não me dizes isto porque está ali sentado o meu companheiro, ou achas realmente a raquel, chama-se raquel, mais bonita? não sei porque é que se me deu este pensamento, se calhar ando a precisar que me digam que sou bonita, quando nos mostramos numa relação fechamos a porta a uma série de coisas, não é?, não só de nós para os outros como dos outros para nós, uns meses depois, solteira, consegui atingir uma cumplicidade sublime com uma série de pessoas que nunca existiria se tivesse o rótulo de comprometida colado com cuspo à testa,
mais tarde, levei-o de carro para casa, perguntei-lhe porque é o gordo da última estante tocava sempre com um ar tão desapaixonado, é mesmo gordo, transborda da cadeira, os botões da camisa sempre em lançamento eminente, o violino parece uma perna de frango nas mãos rechonchudas, vai na volta, quando lhe dá a fome, come um violino a meio do ensaio, só para matar o bichinho, e toca sempre com os ombros descaídos, um ar enfadado não muito diferente do daquela rapariga, também deve ser russo ou búlgaro ou húngaro, dá-lhe a fome e come a perna de frango, o violino, porque é que ele toca assim?
partiu o arco e está lixado porque a orquestra não lhe quer pagar um novo, embora isso esteja contemplado no seguro, por isso toca assim, disse-me ele, lá da altivez da primeira estante,
dizes à raquel que ela é muito bonita? podes dizer que fui eu,
eu digo, és um homem crescido, ainda há pouco me contavas como eras divorciado com duas filhas na roménia para sustentar, agora fazes de mim pombo correio, tudo bem, está tudo bem,
deixei-te em linda-a-velha, num bairro de prédios sem árvores, deste explicações um tanto confusas sobre como sair dali, de facto, perdi-me, mas eu gosto de me perder, senão, como conhecer a sensação de encontrar?
'eu gosto de raparigas mais simples'
como aquela do teu coro, como é que ela se chama?, é bonita, simples, não anda praí a dar nas vistas, mas se olhares com mais atenção é a mais bonita de todas,
eu a pensar, e eu?, não me dizes isto porque está ali sentado o meu companheiro, ou achas realmente a raquel, chama-se raquel, mais bonita? não sei porque é que se me deu este pensamento, se calhar ando a precisar que me digam que sou bonita, quando nos mostramos numa relação fechamos a porta a uma série de coisas, não é?, não só de nós para os outros como dos outros para nós, uns meses depois, solteira, consegui atingir uma cumplicidade sublime com uma série de pessoas que nunca existiria se tivesse o rótulo de comprometida colado com cuspo à testa,
mais tarde, levei-o de carro para casa, perguntei-lhe porque é o gordo da última estante tocava sempre com um ar tão desapaixonado, é mesmo gordo, transborda da cadeira, os botões da camisa sempre em lançamento eminente, o violino parece uma perna de frango nas mãos rechonchudas, vai na volta, quando lhe dá a fome, come um violino a meio do ensaio, só para matar o bichinho, e toca sempre com os ombros descaídos, um ar enfadado não muito diferente do daquela rapariga, também deve ser russo ou búlgaro ou húngaro, dá-lhe a fome e come a perna de frango, o violino, porque é que ele toca assim?
partiu o arco e está lixado porque a orquestra não lhe quer pagar um novo, embora isso esteja contemplado no seguro, por isso toca assim, disse-me ele, lá da altivez da primeira estante,
dizes à raquel que ela é muito bonita? podes dizer que fui eu,
eu digo, és um homem crescido, ainda há pouco me contavas como eras divorciado com duas filhas na roménia para sustentar, agora fazes de mim pombo correio, tudo bem, está tudo bem,
deixei-te em linda-a-velha, num bairro de prédios sem árvores, deste explicações um tanto confusas sobre como sair dali, de facto, perdi-me, mas eu gosto de me perder, senão, como conhecer a sensação de encontrar?
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