21 fevereiro 2013

socapa

19h58
sentada numa cadeira laranja, mesmo na pontinha, a tentar fundir o meu vestido castanho com as tonalidades quentes da sala, à espera que o maestro pare o ensaio para perguntar quem é a menina na plateia, o violinista da terceira estante You want to watch the rehearsal? Come on, if anybody asks you say you come from me, nem sei o nome dele, mas deu-me segurança, se continuar com a cara enfiada neste caderno pode ser que ninguém note, o oboé já deu o lá

21h56
entretanto, fez-se escuro na plateia e já não consegui escrever mais, confirmo e reconfirmo, afinal o convite à minha clandestinidade foi feito pelo próprio maestro e não pelo violinista, sinto-me mais segura agora, até tive a audácia de sair da plateia a meio do ensaio em busca duma casa de banho, a dos bengaleiros estava fechada, voltei para a sala, perdi-me na orquestra, na cama, no cortador de relva e na cortina a esconder o coro, atenção exponenciada pelas poucas notas do naipe das trompas, o ensaio começou pontual, como é decerto costume, eram nove e trinta e um quando o maestro anunciou Let's take a break, vim cá fora, a bexiga a rebentar, Vai à dos homens, está aberta, espero que um, dois, três homens saiam de lá, corro para um cubículo, alivio-me às escuras, ainda lavo as mãos mas não tenho tempo para as secar, à saída dois metros de homem a olhar-me com surpresa Mas o que é isto?, a resposta improvisada É o meu irmão, É bem giro, eu vermelha de vergonha e a porta da casa de banho das mulheres, afinal, entreaberta

15 fevereiro 2013

há quem chegue

à saída do aeroporto com um sorriso na cara, inspira fundo, respira o ar de portugal, de calorzinho, iiiinho, de fim de tarde, a luz que lisboa e mais nenhuma tem, estiveram fora uma semana, um ano, três, turistas também chegam com sorrisos, mas sem saber o que lhes espera, estão contentes de chegar, de férias, de conhecer, 
um pai abraça o filho e fazem uma corrida na rampa das chegadas
um senhor gordo sai com a  cara já enfiada no iPad
montes de gente sai agarrada ao telefone
uma rapariga sai ansiosa, procura, desfaz-se num sorriso e numa corrida para uns braços da amiga
um alemão com meia casa às costas
casais de meia idade vieram viver a aventura 
executivos procuram os nomes nos cartazes das boleias
eu procuro um casaco vermelho e quando veio sem ele só reparei mesmo quando estava já com a boca na minha
aquele abraço

04 fevereiro 2013

ameijôas

apanhei o autocarro em benfica, Este pára em sete rios?, Olhe, é já a seguir, menina, a sentir-me turista na minha própria cidade, a adorar o desprendimento da rotina, o saborzinho a férias no canto da boca, comprei um bilhete, dois, para um comboio no qual nunca tinha andado e sentei-me no segundo andar com o entusiasmo novato de quem anda no segundo andar de um london bus, deixei campolide e alcântara para trás e pumba, de repente estava na ponte, o rio espelhando o sol do meio dia numa luz gloriosa, belém lá em baixo, indiferente à minha euforia, a continuar a servir pastéis e a exibir coisas culturais, a margem sul é diferente, o que tem de feio de urbanizações desorganizadas é compensado pelo cheiro do alentejo e pelo início de tarde soalheiro e pelos pinhais a torto e a direito, saio em coina, só me falta a mochila de campismo às costas, estou com calças finas de verão e com botas da montanha, um aparente contrasenso mas é roupa que me faz sentir de viagem, o capricho de não querer esperar pelo autocarro, apanho um taxi com o senhor luís que me abençoou, a mim e ao amor que me move, desde o momento que abri a porta, confessei-lhe que queria comer ameijôas e ele, Boa!, apanhei-te nas bombas da galp, ensonado e sorridente, já está tudo bem, estamos os dois agora, com a bênção do senhor luís, Vamos comer ameijôas?, Vamos!, os dois num carro com vontade de voar, beatles aos berros, nós aos berros, o sol aos berros, paramos num cafézinho no meio da estrada no meio do nada, Tem ameijôas?, Olhe, não, mas espere aí, foi ao vizinho buscar ameijôas fresquinhas e à horta colher coentros, comi as melhores ameijôas da minha vida, feitas por uma daquelas senhoras que tem ar de quem faz ameijôas há trinta anos, vamos para a praia, fazer render a comida e as imperiais, está gloriosa, o mar ruge, mas não está enfurecido, não pode, num dia como este só nos pode abençoar também, o silêncio é estranho quando a onda volta para trás à espera de se formar outra vez, despes-te e dás o primeiro mergulho do ano, este estado quase etéreo que atingimos neste dia quase que me deixa sem palavras para escrever, temos a praia só para nós e para o pôr do sol que aí vem, laranja, lindo, longo, chegamos a casa para tomar um banho depressa, ligamos ao senhor luís para nos deixar na estação outra vez e voltamos para lisboa, mini férias em dia de semana,

27 janeiro 2013

coeso

não usar a palavra muito quando não temos realmente a certeza
'gosto muito de cerejas'
sim?
'quer dizer, daquelas mais gordas, quando estão bem maduras, no pico do verão'
quer dizer a seguir ao muito a mim dá-me comichão na palma da mão, fico insegura, afinal é ou não é?, quando te digo que gosto muito de ti não há um quer dizer nem um pensando melhor nem um às vezes, é só assim, muito, eu gosto muito de ti,
irracional, irremediavelmente irracional, atracção química física metafísica astronómica universal explosiva, quero(-te) sempre mais e tu dizes sim, sim, muito, dás-me tudo a dobrar, enches-me o peito a cabeça a alma, passas-me as mãos no cabelo na cara no peito,
eu e tu encostados a um vidro, presos pelo olhar um do outro, conversando apenas por convenção, porque nos queremos tão bem que não precisamos falar sequer

22 janeiro 2013

não

não à dor de cabeça
não a portarmo-nos como era no secundário, não é, a não aguentar quatro horas seguidas de aula, aguenta, estás no último ano de faculdade, e até já sabes que vais ter quatro horas de aula, intervalo no meio, quinze minutos esticados até aos vinte cinco, se já sabes, aguenta, porra!, não te rias, foca-te,
fo-ca-te
canta, não fales, ouve, pode ser que te sirva, tu não sabes, não trabalhas, não demoras duas horas a chegar à escola, não fazes mais nada senão desconcentrar-te quando tens quatro horas de aula seguidas, não tens que te levantar às seis no dia a seguir e aguentar-te até às nove da noite,
focus
vá lá, se não o fazes por ti, faz por mim, sou bruta, mando calar, desespero, bufo, suo, rosno, sou desagradável, se fizesses um terço do que eu faço também serias assim, não te chateies que eu gosto de ti, mas fogo,
não à dor de cabeça à terça feira, por favor

10 janeiro 2013

sobre taxis

apanhei dois taxis hoje, os condutores eram os dois gagos, como se não estivessem habituados à simpatia do passageiro alheio, embrulhavam-se às vezes no início das palavras,
o primeiro ouvia a antena 2, gostava de música clássica, apesar de nem sempre a antena 2 passar música de qualidade, vinha a ouvir um quarteto de cordas, uma coisa contemporânea, gostei, achava que as escolas de condução deviam ensinar os alunos a ter noção dos outros, Em vez de debitarem as matérias todas que vocês lá aprendem, este radar na avenida de ceuta só apanha até 50 metros depois, aqui já pode acelerar à vontade, hoje parecia que o céu ia desabar em benfica, mas está tudo bem porque os lençóis freáticos ainda estão fraquinhos nesta altura do ano, e bicicletas, não há condições para se andar de bicicleta em lisboa,
o segundo, Não há dinheiro, vocês então, os estudantes, deve ser mais complicado, rendas de 500 euros, mais a faculdade, mais os outros gastos, tudo contadinho ao fim do mês, antes apanhava aqui muitos jovens que iam para o bairro, agora, agora, olha, jantam todos em casa ou vão lá ter depois do jantar, pagam um absurdo para estudar e depois saem para o desemprego, lá fora é que se está bem, mas não há nada como portugal, a luz de lisboa, alcântara antiga, o pão, o chouriço, o azeite, o vinho, o clima, os estrangeiros vêm cá e dizem I love portugal, pudera, 10º no inverno, andam de t-shirt e bermudas na rua,

31 dezembro 2012

2013

aquela sensação abstracta de janeiro ser o início de alguma coisa, na minha cabeça surge assim, janeiro no início e dezembro no fim,

30 dezembro 2012

não devíamos ter que escolher

temos sempre, dizes tu, do alto da tua altivez, redundância redonda, aliteração a mais,
pois, digo-te eu, cá de baixo da minha alma todavia feliz, mas não devíamos ter que escolher já, eu sei lá o que é que quero ser quando for grande, o problema é que o que decidimos agora já é a valer, como na escola quando jogávamos aos berlindes ao ganhas, era toda uma nova dimensão, o medo de nunca veres mais o teu guelas preferido que tinha partes douradas que brilhavam, agora também é tudo ao ganhas, ou ao perdes, e é difícil, tantas convenções a esmagar-me o cérebro de todos os lados, no final fica assim uma ervilha pequenina com capacidade de pensar adiantado no máximo em semanas, nem me venham falar de meses, anos, de vida, qué isso?,

eu já escolhi algumas coisas, uma delas ter tempo, disseram-me no outro dia que soava a uma mulher de trinta anos, espremida pelo stress do quotidiano, pois bem, tinha razão, eu agora escolhi largar (quase) tudo, focar-me no último ano de faculdade - último? ai - escolhi oito horas de sono por noite, escolhi
Amar
assim, desligando do contexto óbvio, porque me faz feliz, e se não tenho tempo para ser feliz... qual é o objectivo?, o meu objecto é um sorriso de orelha a orelha quando me vê, de metro e oitenta, só de (d)escrever fico feliz, tudo bem, está tudo bem, mesmo

25 dezembro 2012

paris

quando fiz doze anos ofereceram-me uma viagem a paris, ia lá ter com o meu primo, o meu primo preferido, dois anos mais novo, viajei sozinha de avião com aquelas bolsas mitras ao pescoço com o passaporte e o bilhete lá dentro, uma hospedeira de bordo atenciosa sempre de olho em mim e nas outras duas crianças que viajavam comigo, uma não me lembro, o outro era um miúdo armado em bom a ver se me impressionava, decerto a visitar os avós emigrantes na frança, quando o avião saiu do chão foi sem cinto, com a mão a tapar mais ou menos para a hospedeira não o repreender, mas o suficiente para que eu pudesse reparar, e reparei, lembro-me de ter sentido uma pontada de superioridade e olhar para o lado a pensar 'que idiota',
era verão, junho, e fazia calor em paris, andava de calções, óculos de sol graduados e um chapéu de pala da nike, vermelho, fui à torre eiffel e subi de escadas, andávamos com uma baby-sitter coreana, não me lembro o nome, infelizmente, era querida, fomos à torre eiffel e o que mais queríamos era andar num parque de diversões precário que havia no jardim ao lado, ela indecisa, nós só queríamos andar na montanha-russa da água, íamos dentro dum tigre e na descida final levávamos um banho inevitável daquela água salobra, ela lá cedeu, era mesmo querida, ofereceu-me um ganchinho com missangas verdes antes de me ir embora, mesmo depois de eu e o meu primo termos posto um copo com água em cima da porta e dizer-lhe para passar por lá, e de cuspirmos pela varanda na cabeça das pessoas que passeavam na bastille, ela não se conseguia zangar,
uma noite fizemos um piquenique ao luar, eu e o meu primo a fazer sandes a tarde toda e a convencer os meus tios que era uma óptima ideia, fomos, estava daquelas noites quentes, foi brutal,
outro dia fomos para o campo, fizemos malas à pressa antes do jantar, 'leva um casaco e calças que lá faz frio', comemos arroz take away do chinês da esquina, nunca comi um arroz xau xau tão bom como aquele, lá no campo havia um laguinho e uma piscina e um barco de plástico, apanhávamos sol até não podermos mais no barco que estava no lago, quando não aguentávamos mais saltávamos para a piscina, gelada, e depois de volta para o barco, e assim sucessivamente, às vezes o barco fugia e tínhamos que saltar para dentro do lago, tirávamos à sorte, par ou ímpar, era um nojo, sentir o lodo e outras coisas a prenderem-se nas nossas pernas,
o meu primo tinha um tio, que não é meu tio, que veio ter connosco de helicóptero, eu andei de helicóptero, tínhamos que usar auscultadores para falarmos uns com os outros e por causa do barulho, eu lembro-me que os meus estavam tão quentes, queimavam-me a orelha, mas eu toda borradinha com medo de os tirar aguentei, parece que estás numa bolha, vês tudo a um ângulo quase completo, viras ao sabor da bolha, foi mesmo giro,
gosto mesmo do meu primo, ainda hoje é dos meus melhores amigos, vejo-o uma ou duas vezes por ano e parece que não passou tempo nenhum

passeio

'quando me casei com o teu avô estava a meio do curso de odontologia, isto em 58; na minha altura não era muito costume as mulheres irem para a faculdade e, se fossem, era para arquitetura, os homens para engenharia e as mulheres para arquitetura, ou então casavam aos vinte e ficavam em casa a bordar o enxoval; o teu avô recebeu uma indemnização de guerra cerca de um ano antes de nos casarmos e disse ao tio dele, que o tinha criado os últimos dez anos, que não queria construir uma vida com base naquele dinheiro sujo, o tio, sujeito rígido, disse que ele era um idiota se não poupasse esse dinheiro e disse-lhe que se comprasse uma viagem perderia o emprego que tinha na sua empresa, gastámos o dinheiro todo numa lua de mel de quatro meses a viajar pela europa - budget 5 dollars a day - numa altura em que andar de avião era raro, escolhíamos sempre os vôos com refeições incluídas, fiquei grávida nessa viagem do teu tio, o teu avô zangou-se comigo porque eu andava sempre enjoada e eu chorei imenso, afinal estava grávida, quando voltámos para o brasil - voltei para o brasil com um filho e o teu avô sem emprego, começou assim a nossa vida a dois - a bisa Dora tomava conta do Roberto e eu tinha um consultório no anexo ao lado da casa, quando a tua mãe nasceu o teu avô arranjou trabalho no uruguai e fomos todos, nunca mais trabalhei como dentista'