04 dezembro 2014

estatísticas

se quisesse, fazia estatísticas da minha vida para me chocar a mim mesma. eu gosto de estatísticas, assim como gosto de listas, de riscar coisas das listas e de ambientes limpos e arrumados - embora no caos também haja uma certa paz.
começava logo por estatisticar que no último ano escrevi menos de um post por mês, mas imediatamente fazia a estatística de que mais de um quarto desses posts foram sobre o facto de não escrever, e este tipo de redundância cansa o leitor, que, estatisticamente, já está cansado do seu dia e se por acaso por aqui pousa é para relaxar, e não deparar-se com dúvidas metafísicas do foro escrito,

por isso, já chega Marta, martolas foi só fruto da adolescente em mim a não querer ser séria e a achar que as maiúsculas são passíveis de serem esquecidas, da altura que escrevia com pontos finais e de exclamação e às vezes de exclamação E de interrogação, tu sabes como são esses anos, mas já estou a falar de escrever, e agora a escrever que estou a falar de escrever, enfim, podia estar aqui o dia todo nisto, mas tenho que ir trabalhar,

a estatística que mais me custa neste momento: a frequência com que comunico com vocês os dois. sempre fomos independentes, cada um com o seu (des)foco, mas um ano e meio depois de deixarmos de partilhar sistematicamente o mesmo espaço, tenho, estatísticamente, saudades vossas.

11 outubro 2014

parei

deixei de escrever. parei.
aqui, no meu caderno, na minha cabeça.
cresci? parece-me ridículo. relativizar, que é praticamente a mesma coisa que crescer, parece-me uma palavra mais adequada.
vou ver se me ilumino, peraí

30 junho 2014

quando deixas de acreditar

apesar de tudo aparentemente continuar bem, ou até poder continuar bem, ou eventualmente poderá ficar bem.

mas deixaste de acreditar.

27 junho 2014

mais efémero (atrasado)

A vida do ser humano é conduzida à procura de estabilidade. É. Seja qual ela for. Quando atingimos um período em que as coisas nos parecem estáveis, assentamos na poltrona, num falso bem-estar. Falso porque não há estabilidade. Há rotina, há hábito. E, nesta brincadeira de ser jovem adulto, de já não ser estudante, de ser emigra, não há uma ponta de estabilidade na vidinha que levamos. Apetece escrever este texto com palavrões. Merda, caralho. Como quem diz, Epá, bolas.
Tudo é efémero, como já escrevi num conselho a uma amiga, com tal clarividência que até parece que não era eu a escrever. Porque ao final do dia, aqui deste lado também tudo é efémero. Passível de terminar.
E se?
Se terminar?
Colocar tudo em causa devido a análises exageradas. Ser recipiente duma irritação de quem sabe que não tem toda a razão mas que, no entanto, dorme aqui tranquilo, como faz todas as noites há quase um ano.
Estabilidade efémera.
Foda-se.

08 junho 2014

neste momento

sopa ao lume
brigadeiros à espera de serem enrolados
uma festa daqui a pouco
trinta graus lá fora
chuva tropical


mudar

vou-me deixar dessa cínica pretensão de que só escrevo textos bem pensados, com qualidade literária, mas que no fundo são só desabafos pessoais mascarados de recursos linguísticos, talvez passe a ter um blog com pontos finais, com sátiras do quotidiano, com perguntas abertas para os leitores, mas na verdade não sei se consigo pull it off - já te tinha contado que não sei falar português?
vamo lá a ver.

01 junho 2014

finalmente aconteci

engraçado como pequenos problemas se podem tornar grandes num ímpeto de emoção e overthinking, mas mais engraçado é como grandes problemas se tornam pequenos uma vez que aprendemos o dom de relativizar, é uma coisa que vem com o tempo, com a vida, e não me apetece explicar que não vivi assim tanto e que não estou a ser hipócrita,
eu finalmente aconteci, nas coisas pequenas - grandes - da minha vida, estes 10 meses de prova de fogo provaram-me que o fogo é tão grande quanto o queremos ver - as big as we want to see it -, o meu português não é o que era,
descobri que esta é uma plataforma através da qual várias pessoas que me são queridas me vêm visitar, embora eu não saiba, embora eu não veja. deixa um comentário para a próxima, a mim sabe-me bem e a ti aposto que também, e como descobri isso, decidi, após vários meses de escritos irregulares e amorfos, fazer uma lista de coisas que já se passaram, só para saberes
decidi mudar de país, com três mil euros no bolso e um Amor como guia
passados três meses, a poupança já era, mas em vez dela veio uma casa - inha -, um trabalho, uma independência como nunca senti antes
veio também muitas saudades de portugal e dos amigos e dos cafés e principalmente do conforto de saber que qualquer um deles estava à distância de um telefonema
vieram alturas difíceis, tristes, solitárias, apesar do Amor continuar um pilar central que me manteve de pé,
aprendi uma nova língua, uma nova cultura,
nessa nova língua consegui ligar para um atendimento ao cliente, dar direcções a uma pessoa na rua e ter uma entrevista de emprego - emprego esse que consegui
plantei salsa na minha varanda e está a crescer
a nossa casa já sabe a casa
já tive visitas e visitei, nunca. nunca subestimes o poder de uma visita, é tão bom, sejas visitante ou visitado,
já temos talheres e pratos suficientes para mais que dois

pronto, vou tomar um banho de banheira

21 março 2014

vejam vejam

uma foto do meu pequeno almoço naquela cadeia de cafés americanos cujo nome não vou aqui dizer porque não merecem publicidade extra, capitalistas de merda,
mas vejam a foto, que significa que gastei oito euros por um croissant seco e um café maior do que eu preciso, não sou chique? ou então vejam a foto de mim, tirada por mim, a mim, egocentrismo? não, estou só a partilhar o novo corte, as novas unhas, a lágrima no canto do olho, ai, agora estou aborrecida, a aula de português é tão seca, bla bla BLA, who the fuck honestly cares,
isto podia ser um post sobre ao que chegámos aos dias de hoje, sobre redes sociais, sobre o futuro da nossa geração, mas não, sou só eu com raiva e ah,
candidatei-me hoje a mestrado.

03 março 2014

por vezes tenho medo

que fiques para sempre presa no limbo entre os teus dois mundos.
acho que não conversamos o suficiente, pelo menos o suficiente para eu ter a certeza a qual é que pertences agora, ouço sempre pacientemente os últimos dramas e fofocas mas sem nunca conseguir encaixá-los numa visão geral, sempre são acontecimentos desligados, interrompidos por várias semanas de me perguntar Como será que vai esta história, e depois, como não tenho resposta, e também tenho muito que fazer deste lado, esqueço-me, e quando me lembro outra vez, sinto-me mal por nunca mais te ter dito nada e ligo-te. há sempre qualquer coisa que se põe entre nós e acabamos por não falar até surgir uma situação socialmente propícia novamente.
não me leves a peito, porque eu não falo do peito, quer dizer, falo, contigo é sempre, mas sinto-me estranhamente analítica em relação a este assunto, como se me visse de fora a falar sobre ele, um tanto quanto de metafísica,
mas por vezes a matemática fica de lado e tenho medo que fiques para sempre presa no limbo entre os teus dois mundos. bem sei que há tanto que lá ficou, mas também, querida, lá há de ficar. e tu escolheste o deixar o lá e vir para cá. porque és uma mulher que pensa no futuro. que tem objectivos. e, sinceramente, por mais que o (A?)amor nos turve os olhos, nunca te imaginei tanto tempo iludida. novamente, não me leves a mal, nada para mim é ilusão em amar alguém, por mais destrutivo que isso seja. é real. ilusão é, sim, saber que te sujeitas a tratos que não são dignos de ninguém e a mim isso dá-me vontade de bater em alguém. mas não. muitas vezes pensei em ter uma conversa com essa pessoa que te arruina, meu deus, o dramatismo!, mas penso, Não é nada comigo, eu tenho é que saber ouvir, é o melhor que faço. é?
talvez isto tudo não faça nenhum sentido porque entretanto já aconteceu outra reviravolta na telenovela dos dois mundos; se assim for, ignora isto tudo. ou não, porque por aqui sei que me ouves. sei que sabes o que eu sinto.
um dia disse que te amava. nunca tinha dito isso a nenhum amigo e decidi dizer-te no momento mais frágil da nossa relação. minha querida, estamos longe desse ponto agora, obviamente. mas há um vazio aqui dentro pequenino que tende a crescer sempre que não atendes as minhas chamadas, sempre que não dizes porquê, sempre que te esqueces da hora marcada, sempre que dizes Agora não dá jeito. mas como te amo, neste sentido perigosamente forte da palavra, há algo que empurra esse vazio contra as paredes da razão e o torna pequenino, quase invisível.
não te percas entre os dois mundos. fica no que escolheste para ti, desde o início. se não tiveres a certeza, não te preocupes, pequenina. eu acredito em ti.

15 janeiro 2014

quem me dera ser o lobo antunes, primeiro, gosto de lobos, animal bonito, poderoso e ao mesmo tempo com a semelhança canina ao melhor amigo do homem, o que lhe confere a ilusão de ser domesticável, segundo, porque quando o homem escreve, fico eu com vontade e sem capacidade de escrever, imagino quantas pessoas não hão de lhe ter mandado seus escritos, na esperança de sobressaírem, também tenho esse sonho, mas nem sei bem como chegar a ele, por isso escrevo, para mim na maior parte das vezes, mas dele roubo a simplicidade das descrições do quotidiano mundano, a falta de pausa na escrita, eu adoro, cada vez que lhe leio um romance, é cada página três ou quatro vezes, e ainda tenho o último com o marcador na página trinta, à espera de espaço mental para que o possa terminar,
gosto também do saramago, mas esse já foi, o sarcasmo dele também me inspira a dissecar as minhas próprias ideias,
e isto já parece uma crítica literária, ou então nada a ver com isso, eu sei, vem-me o termo à cabeça e eu sei que não está correcto, mas tenho preguiça de corrigir, pensar num melhor, já te disse, escrevo para mim na maior parte das vezes,
Já não é meia noite quem quer, está lá na minha mesa de cabeceira, comprei-o no verão passado, como é bom gastar dinheiro em algo que se quer, e desde então está lá, na minha mesa de cabeceira, a dois mil quilómetros de onde estou agora, nas férias considerei trazê-lo, é grande e pesa, e sinceramente não me achei capaz de o tentar ler novamente, talvez no verão, quando estiver dourada por fora e límpida por dentro, consiga ler, ata titi tio atou