28 maio 2017

olha!

voltei, por breves instantes, momentos efémeros, voltei, depois de reler isto tudo e de, sinceramente, ficar orgulhosa de mim própria, porque por mais ingénua, naïve, infantil que tenha sido - e quem não tem direito de o ser? - acho que escrevi coisas boas, coisas muito boas, frases que quero guardar, talvez seja por isso que ainda não apaguei isto aqui, nem que seja para ter um registo de mim própria, já que claramente a era é digital, uma espécie de diário digital parece-me apropriado,
ainda sou criança, se me comparar com os que casam, têm filhos, compram casas,
já não sou criança, se me comparar com os que ficaram, pago renda, tenho seguros mil, faço o meu próprio irs, e não há ninguém que o faça por mim,
a vida está boa, em cada ano sinto evolução, algumas coisas ficam para trás, ou, pelo menos, atrasadas, mas isso é em todas as fases de vida, acho,
achismos, achismos!
os amigos que ficaram são para valer e isso faz-me mesmo feliz, aqui são dez da noite e ainda é de dia, até já

09 dezembro 2015

hard things

[first post in english, guessing it was about time]

you know, the hardest thing about living abroad is not adapting to the culture, learning the language, finding an apartment, getting a job,
the hardest thing is knowing, in your heart, that it'll be years before you can say you have a true, deep friendship in this new country
the hardest thing is knowing that your real friends and family are only a whatsapp message or skype call or facebook message away, but that it is not immediate; there's no calling for a spontaneous coffee somewhere, no instant comfort when something's up, no 'can you come over later today'

you tend to get together with people you are somehow familiar with; most of the time, with people who come from the same or neighbouring country as yours;
the thing is - and you only realize it after you've tripped on a few disappointments - the only thing these people have in common with you is the fact that they come from your country;
you are involuntarily part of a group just because of your nationality. you think, Hey, cool, I can relate to these people, I am not alone. You don't however predict that these people might not be cool; they might be racist, childish, stupid, selfish or they might just not be your kind of person. but, because of your heritage, you turn to it, over and over again, because somewhere inside you there is something that tricks you into thinking it's good belonging in this group.
actually, it feels nice to belong in any group. we are social creatures, we need this comfort. it's just that this particular group... well, it sucks. and the hardest thing is, you know you want out - you don't really like any of the people there - but what then? you'll be the excluded member, being judged because you don't engage in activities with a group of people you don't like. tricky sticky situation.

the hardest thing, I'm telling you, is getting your head above the surface in this heavy atmosphere of silently enforced friendship.
and realizing there so many nice people out there, so many.

02 outubro 2015

sobre alemães

passados dois anos a viver no norte da alemanha, há uma série de particularidades sociais que tenho vindo a notar em relação a esta diferente cultura; muitas delas inesperadas, e, muitas das que já eram esperadas, inexistentes

as generalizações fazem mal e ser demasiado literal também, por isso já vão de aviso prévio que o que se segue não quer ofender nem discriminar ninguém, quem assim o sentir que pegue nos seus trapinhos e vá julgar para outro sítio, pronto, assim ninguém se chateia

os alemães gostam de sistemacidade, isto sequer existe?, gostam de chegar a horas - entenda-se três minutos antes da hora - e não consideram aceitável chegar os dez minutinhos da praxe depois, muito menos sem avisar; isto acontece porque planeam, muito, planeam quanto tempo precisam para chegar a tal sítio com aplicações que oferecem o melhor trajecto e tipo de transporte - entenda-se também que o transporte público funciona bem - e planeam já com tempo para imprevistos; chegam com devida antecedência aos aerportos, calmos e serenos com os bilhetes impressos e check in feito, com uma postura digna de fazer qualquer latino esbaforido com uma mala com excesso de peso sentir-se mal,
os alemães são discretos em locais públicos, na hora de ponta no metro, vai tudo com a cara enfiada num livro, num kindle ou num telefone, e se, por acaso, têm que atender uma chamada, falam no volume -2 para não incomodar quem está ao lado, ou talvez por pudor, claro que isto só é possível porque o metro não faz barulho, queria vê-los a tentar falar assim na linha azul em lisboa,
os alemães gostam de regras e de cumpri-las, mas acima de tudo gostam de reprimir quem não as cumpre, com um abanar de cabeça desaprovador e um olhar condescendente, como o meu vizinho cusco de cima que mandou vir comigo quando fui levar a reciclagem a um domingo - pois, há este tipo de regras, não levar lixo à rua aos domingos, ou entre as 13 e as 15 ou depois das 20, no metro há um aviso que diz que se fores apanhado sem bilhete não só te sujeitas à multa de xis euros, mas também à humilhação perante todos os outros passageiros que pagaram, este é o nível do envolvimento com as regras por aqui,
os alemães esperam que fales alemão quando estás na Alemanha, maior parte fala bem inglês mas não consegue entender como é que vives no seu país sem dominar a língua,
os alemães são maus a gerar espontaneadade mas são óptimos a juntarem-se a ela, se houver uma festa organizada por alemães podes crer que vai começar às sete em ponto, às oito serve-se o jantar e se chegares a meia hora da praxe mais tarde, vão te perguntar porque é que te atrasaste; se houver uma festa espontânea organizada por não-alemães, os alemães não têm problema nenhum em aderir à causa e incluir-se de maneira natural,
os alemães jantam às seis ou sete, e em casos extremos, às cinco, no restaurante italiano aqui ao lado - de dono e empregados italianos, já nos disseram, quando chegámos às nove para jantar, que os da europa do sul chegaram!, compreensivos, apontando com um leve desprezo para o grupo de alemãs que claramente àquela hora já ia na terceira garrafa de vinho e no caminho certeiro para uma ressaca no dia seguinte,
os alemães tiram os sapatos quando entram em casa e usam muito mais o aspirador do que a vassoura. não interessa se é carpete, laminado, flutuante ou linóleo,
tudo está fechado ao domingo, supermercados, lojas, cafés, muitos restaurantes, os centros comerciais estão abertos, mas as lojas lá dentro estão fechadas (?!) e se calha haver feriados antes ou depois de domingo, os alemães atiram-se ao supermercado como se não fossem comer durante um mês, atulhando o carrinho com enlatados e bens não perecíveis, não vá faltar algo nos dois dias em que não podem comprar nada,
os supermercados são estranhos, são de bairro e o conceito compras do mês não existe, os alemães vão às compras a seguir ao trabalho e comprar o que vão fazer para o jantar e, vá lá, qualquer coisa para petiscar na manhã seguinte, dá para ver quem não é alemão porque anda com aquele tipo de compras de ocupar a esteira toda da caixa, mesmo para chatear o alemão de metro e noventa que veio comprar um iogurte e uma banana para a merenda,
a (pre)suposta frieza dos alemães é mais uma barreira de formalidade que não se ultrapassa com uma piadola sem profundidade ou com uma pergunta indiscreta, mas uma vez que a ultrapassas, podes contar com um amigo para a vida, talvez isso, em contraponto com a superficialidade latina, seja mais eficiente a longo prazo,
sim, são eficientes,

há de certo mil outras coisas, assim como há de certo quem não concorde comigo e quem escreva de certo tudo junto, mas assim como isso há imensa coisa no mundo, não é

20 julho 2015

tempo

dou por mim assustada com o mundo em que vivemos
calma, não estou a falar do aquecimento global, nem do último rinoceronte em áfrica, nem do desesperante sistema político, nem da merkel a mandar emigrantes embora, nem dos travestis assassinados no brasil, nem dos 4 euros à hora que profissionais qualificados recebem,

estou a falar do nosso mundinho, consciente mas estranhamente desapegado desses problemas maiores, que, na realidade, nem sequer nos afectam pessoalmente, estou a falar do nosso mundinho cibernético,

queremos tudo rápido. bem rápido.

dou por mim impaciente quando uma aplicação demora mais do que 4 segundos a abrir, tenho o telefone cheio de sistemas que me limpam a memória, optimizam o dispositivo, poupam bateria, tudo para ser mais rápido; a primeira coisa que faço quando vejo um vídeo é verificar quão longo é, se tem mais de um minuto, esquece, ain't nobody got time for that, e, no entanto, posso estar duas horas a ver coisas inúteis numa interface electrónica qualquer - desde que tenham individualmente menos que um minuto; aborrece-me a um nível estúpido quando tenho que esperar seis - seis! - minutos pelo metro; a preguiça de cozinhar opõe-se à comodidade de encomendar algo gorduroso e instantâneo; até secar o cabelo aborrece-me porque demora.

quando me apercebo, acontece de vez em quando, assusto-me. desde quando somos tão impacientes? por isso, dedico cinco minutos do meu precioso tempo a ver uma curta dum amigo, levo um livro para ler enquanto não chega o metro, levanto o rabo da cama para fazer um jantar decente. E compensa, a sério.

pelo menos até ao próximo momento de inércia impaciente.

16 fevereiro 2015

o pior jantar

sinto-me segura em contar esta história porque, apesar de mesmo assim não sentir necessidade de mencionar nomes, sei que és daqueles que, se descobrires que é de ti que falo, se vai rir à gargalhada,

pois o meu pior jantar do último ano, vá, foi em casa de um bom amigo
o jantar em si não foi nada mau, palavra de honra, o pretexto de já não nos vermos há demasiado tempo aliado ao carinho que tenho pelos teus pais, e, gosto de pensar, vice-versa, manifestou-se na tua voz, carregada do stress do dia, naqueles dois minutos em que afinal até conseguimos encontrarmo-nos telefonicamente, Anda jantar a minha casa hoje,
fui, as piadinhas do teu pai, a curiosidade e preocupação da tua mãe com a minha vida de emigrante, ajudei a colocar a mesa, como boa hóspede que sou, sirvo-me um copo de sumo e, ao ver o prato da noite - bifinhos com cogumelos e natas - um pequeno calor indisposto começou a gerar-se no fundo a minha garganta, parecido com aquele medo de quem sabe que está prestes a receber más notícias,

tu, na tua vida de afazeres variados, no meio dos telefonemas não atendidos e das mensagens não respondidas e dos Epá, tou muita cansado, hoje não posso, que estão todos perdoados, não te guardo rancor, mas a verdade é que tu, no meio disto tudo, esqueceste-te das pequenas coisas que nos tornam mais do que meros conhecidos, como, por exemplo, que eu não como natas

não gosto, é teima, psicologicamente repulsa-me aquele molho branco, espesso, como se estivesse a engolir argamassa com noz moscada, e nem vamos falar de bechamel, senão não termino de escrever este texto

fiz cara de pânico - interior, e comi tudo no meu prato, e contra a minha própria teimosia, estava óptimo, decidi experimentar mais, apesar de haver pouca coisa que não como e decidi também perdoar-te por não te teres lembrado,

depois fomos beber umas cervejas, ao jardim da dita cuja, encontrar umas caras conhecidas de outros tempos, um acaso doce e amargo ao mesmo tempo, no final da noite, levaste-me até ao meu carro, tinha deixado em tua casa, e eu já estava a sentir uma leve agonia que o arroto discreto não estava a aliviar, de certo que duas cervejas não chegam para este tipo de sensação, durante a viagem fui falando menos e menos, chego ao meu carro e dou-te um abraço rápido e um obrigada pelo jantar, e sigo, a andar devagar e a evitar irregularidades na estrada porque agora já é certo que vou vomitar eventualmente,

se há coisa que detesto mais que natas é vomitar

ainda são vinte minutos de viagem, faço um plano, uma lista, vou por este caminho, quando chegar a casa estaciono na rua, vomito e depois subo para casa, qual quê, aguentei-me que nem uma guerreira, a engolir ar e a chamar nomes às lombas, mal entro na minha rua, algo cede em mim, um bocado como o xixi aflito quando metes a chave na porta de casa, e só tenho tempo de encostar, puxar o travão de mão, abrir a porta e deitar tudo cá para fora, de cinto posto e tudo,

isto dura uns cinco minutos. fecho a porta, tiro a camisa e limpo a boca e a testa suada, levo o carro os vinte metros que faltam para estacionar e subo para casa, onde o meu pai olha para mim e de certo acha que apanhei uma piela daquelas, eu a tremer lá lhe explico das natas, lavo os dentes com prazer, tiro a roupa mal cheirosa e deito-me

escusado será dizer, nunca mais comi natas

10 fevereiro 2015

segundo

o segundo na verdade é o primeiro, porque quando o começas a contar, ele já terminou, tornando-se assim, naquele instante, único, portanto, o primeiro, se não fosse por isso, talvez merecesse ser chamado primeiro em vez de segundo porque durante esse espaço de tempo muita coisa pode acontecer, primeiro, primário, entendes

também pode não acontecer nada de mais - não te baralhes com a dupla negação

mas um segundo a mais é o tempo de cozeres em demasia um ravioli de gema de ovo, assim como um segundo a menos é o tempo de perderes o intercidades para o porto, um olhar que fica aquele segundo a mais traz uma série de intenções subentendidas que não existiriam se não fosse por esse segundo, um segundo a menos naquele silêncio entre o final da música e do aplauso pode estragar toda uma sinfonia, um segundo a mais a levar a panela do fogão à mesa sem pegas porque ficaste com preguiça de as procurar pode doer um bocado e, no entanto, era só preciso mais um segundo para deixares as ditas pegas penduradas na porta do forno em vez de na bancada

no nosso primeiro beijo eu tinha dois segundos - primários - queria apanhar o último comboio para casa e não queria que ficasses com dúvidas da tarde - alcântara, cafés, joelhos a tocar debaixo da mesa, chiado, jantar, mostarda a cair-te do queixo, mais cafés, e cigarros, faz-me um - mas tinha mesmo que apanhar o comboio, nesses dois segundos que tinha, escolhi dar-te um em forma de beijo desajeitado na tua boca despreparada e depois correr, sem olhar para trás, para as portas que fechavam a apitar

11 dezembro 2014

estão-me presentes

[n'alma]

como toda a gente que se preze - se pararmos para pensar, as generalizações são tão injustas - eu tenho aqueles amigos aos quais chamo amigos, mas que podia chamar de irmãos, namorados, pais, conhecidos, inimigos, porque de tão amigos que são muitas vezes se confundem com todos estes outros papéis sociais que acabei de enunciar,

são um pouco opostos um do outro, primeira e obviamente no sexo, depois de maneira mais subtil no jeito de ser, para quem está de fora até dá para ver o quão obviamente diferentes são, mas eu que estou dentro, a outra ponta do triângulo que apesar de tudo é equilátero, não me são tão claras as diferenças,

como um triângulo equilátero, somos complementos

tentei e apaguei todos os adjectivos que pensava que vos caracterizavam; afinal, um de vocês disse-me, Não especifiques, generaliza, e outro, Que as estatísticas assustam, e uma lista é nada mais que uma estatística disfarçada de palavras, uma categorização de coisas, através da qual podes ver qual a mais frequente, qual a menos, qual vem em primeiro, enfim, a estatística e as listas são primas afastadas que têm o mesmo avô

tenho pensado em vocês e que se foda se este sítio é para desabafos pessoais ou escritos de qualidade e interesse, para mim interessa, e é quase Natal, época dos presentes, a mim quem está presente são vocês.

04 dezembro 2014

estatísticas

se quisesse, fazia estatísticas da minha vida para me chocar a mim mesma. eu gosto de estatísticas, assim como gosto de listas, de riscar coisas das listas e de ambientes limpos e arrumados - embora no caos também haja uma certa paz.
começava logo por estatisticar que no último ano escrevi menos de um post por mês, mas imediatamente fazia a estatística de que mais de um quarto desses posts foram sobre o facto de não escrever, e este tipo de redundância cansa o leitor, que, estatisticamente, já está cansado do seu dia e se por acaso por aqui pousa é para relaxar, e não deparar-se com dúvidas metafísicas do foro escrito,

por isso, já chega Marta, martolas foi só fruto da adolescente em mim a não querer ser séria e a achar que as maiúsculas são passíveis de serem esquecidas, da altura que escrevia com pontos finais e de exclamação e às vezes de exclamação E de interrogação, tu sabes como são esses anos, mas já estou a falar de escrever, e agora a escrever que estou a falar de escrever, enfim, podia estar aqui o dia todo nisto, mas tenho que ir trabalhar,

a estatística que mais me custa neste momento: a frequência com que comunico com vocês os dois. sempre fomos independentes, cada um com o seu (des)foco, mas um ano e meio depois de deixarmos de partilhar sistematicamente o mesmo espaço, tenho, estatísticamente, saudades vossas.

11 outubro 2014

parei

deixei de escrever. parei.
aqui, no meu caderno, na minha cabeça.
cresci? parece-me ridículo. relativizar, que é praticamente a mesma coisa que crescer, parece-me uma palavra mais adequada.
vou ver se me ilumino, peraí

30 junho 2014

quando deixas de acreditar

apesar de tudo aparentemente continuar bem, ou até poder continuar bem, ou eventualmente poderá ficar bem.

mas deixaste de acreditar.